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Membros do MBL invadem Unicamp, agridem estudantes e vandalizam a parede da Biblioteca do IFCH

  • Comunicação

Valério Paiva

Na última quinta-feira, 19 de fevereiro, logo após o recesso de Carnaval, a comunidade do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp foi alertada sobre um vídeo que circulava nas redes sociais. As imagens mostravam um indivíduo expondo ataques com tinta branca contra intervenções artísticas nas paredes do prédio de Graduação, com foco em mensagens da comunidade trans. A ação, realizada de forma ilegal, ocorreu possivelmente durante o recesso e em uma madrugada, aproveitando a ausência de vigilantes para vandalizar o patrimônio institucional sem resistência.

A direção do instituto notificou a Secretaria de Vivência nos Campi (SVC), mas optou por não dar visibilidade imediata ao episódio para evitar o palanque digital buscado pelos invasores. No entanto, o cenário mudou drasticamente nesta segunda-feira (23), data que marcou o primeiro dia de aula e o início da calourada de recepção aos novos estudantes de graduação e pós-graduação. O que antes era uma ação furtiva transformou-se em invasão direta. Um grupo de nove membros do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidatos do recém-legalizado Partido Missão entrou no campus com o objetivo explícito de criar conflitos. A ação demonstra uma tentativa de transformar a universidade em palco de campanha eleitoral antecipada, utilizando a invasão como ferramenta para gerar engajamento em redes sociais por meio de um suposto embate ideológico.

A prova da premeditação e do viés de ódio surgiu nas próprias redes sociais dos invasores. Em vídeos publicados antes da ação, os membros aparecem em um bar afirmando: “A gangue completa reunida aí. Hoje nós vamos causar, galera!”. Após o conflito, um dos integrantes gravou um relato em tom de escárnio e desumanização contra os estudantes: “Começou a descer aluno de tudo quanto é lugar. Saiu até de dentro do bueiro, né? Pelo fedor que eles tinham, né? Acho que andou saindo até de dentro do bueiro, um pessoal esquisito”, afirmou o invasor, acrescentando que os alunos “são porcos” e “adoram uma sujeira”. Em um momento de autodeclaração, o autor do vídeo resume o espírito da ação: “E eu cheguei à conclusão que eu era movido pelo ódio”. Essas falas buscam agredir os estudantes e a universidade pública para justificar a própria violência. 

Ao tentarem cobrir com tinta branca os grafites da parede externa da biblioteca do IFCH, que estampam manifestações do movimento negro, os invasores foram confrontados pelo protocolo de autodefesa dos estudantes. O método, consolidado no ano passado após cinco incidentes semelhantes no Mural Negro do Prédio da Graduação, é uma construção coletiva que prevê que os membros da comunidade cerquem os invasores sem agressividade, exigindo o recuo por meio de gritos e palavras de ordem enquanto acionam a segurança da SVC. O protocolo visa justamente evitar o contato físico e a violência, blindando a comunidade contra provocações de grupos externos. 

Desta vez, porém, o grupo externo partiu para a violência física em meio às atividades de recepção aos calouros. Ao menos três estudantes ficaram feridos; um deles precisou de atendimento hospitalar após ter a boca cortada e outro foi jogado ao chão, sofrendo escoriações.  Desde o ocorrido, a direção do IFCH tem acompanhado esses alunos, oferecendo apoio no que for possível, mas considera que, embora a universidade possua protocolos pacíficos para lidar com tais abordagens, a transição para a violência física direta demonstra uma escalada preocupante na motivação política dos invasores. 

Na manhã desta terça-feira (24), foi registrado um Boletim de Ocorrência sobre o episódio. Ao longo do dia, o diretor da unidade, professor Ronaldo de Almeida, e o diretor associado, professor Sávio Cavalcante, concederam entrevistas a diversos veículos de imprensa detalhando a gravidade da situação. Os dirigentes classificaram os episódios de invasão e agressões como intoleráveis e uma grave afronta à democracia, à autonomia universitária e à segurança do campus. 

Em nota oficial divulgada na tarde desta terça-feira, a Reitoria da Unicamp reforçou esse posicionamento, manifestando seu repúdio à invasão e aos atos de intimidação. A administração central informou que já está adotando as medidas administrativas e jurídicas necessárias para identificar e garantir a responsabilização dos envolvidos. O caso segue sob investigação policial, fundamentado em registros de imagem e nos relatos de agressão colhidos no campus.

Cabe, por fim, afirmar que este evento se soma a outros do mesmo tipo ocorridos em outras universidades públicas do país. Desde o ano passado, a direção do IFCH se somou à da FFLCH/USP na mobilização das direções das Humanidades de outras universidades públicas para adoção de procedimentos comuns e articulados visando à criminalização dos agressores.