
A obra e o afeto de Carlos Rodrigues Brandão
Valério Paiva
No final de setembro, a comunidade da Unicamp vivenciou uma imersão profunda na sensibilidade visual e humana deixada pelo antropólogo, educador e professor emérito da instituição, Carlos Rodrigues Brandão (1940 - 2023). Organizada pelo Centro de Memória Unicamp (CMU), uma excursão gratuita levou visitantes de Campinas até o Memorial da América Latina, em São Paulo, para conhecer de perto a exposição "Os rostos do campo: a poética do encontro de Carlos Rodrigues Brandão".
Carlos Rodrigues Brandão foi professor do Departamento de Antropologia do IFCH Unicamp de 1976 até 1997, desenvolvendo pesquisas pioneiras nas áreas de cultura, educação popular, antropologia rural e questões ambientais em diferentes regiões do país. Ministrou disciplinas na graduação e na pós-graduação sobre religião, cultura popular e teoria antropológica e o mundo rural. Sua atuação institucional marcou a fundação do Centro de Estudos Educação e Sociedade (Cedes), na Faculdade de Educação (FE), e do Centro de Estudos Rurais (Ceres), no IFCH, além de seu vínculo fundamental com o Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam).

Mais do que formar gerações de pesquisadores nas salas de aula e nas inúmeras viagens de campo organizadas no interior de São Paulo, Goiás e Minas Gerais, Brandão cultivava legiões de amigos. Com seus estudantes e colegas, compartilhou o rigor do trabalho intelectual, o fascínio pela obra de Guimarães Rosa, em especial pelo universo de Grande Sertão: Veredas e pela figura de Manuelzão , além de seu profundo amor pelas pessoas do campo e pela natureza. Dividia também a hospitalidade de seu sítio Rosa dos Ventos e as delicadezas do cotidiano. Autor de dezenas de livros sobre comunidades tradicionais, populações rurais e literatura, entre contos e poesias, Brandão se enxergava como um “militante ativista”, compreendendo o ensino e o aprendizado como facetas de uma mesma vivência coletiva e inseparável.
Ao chegarem à capital paulista, os visitantes foram recebidos de forma única: antes mesmo de entrarem na Sala Gabriel García Márquez, o público pôde contemplar uma projeção externa de fotografias feitas por Brandão, exibidas na fachada do prédio da administração e na caixa d'água de outro edifício do Memorial, criando uma atmosfera visual impactante logo na chegada.

Já no interior da sala de exposição, a visita guiada foi conduzida pela pesquisadora e curadora da exposição Iara Rolim, que estruturou o percurso para que o público sentisse o trabalho de Brandão de forma sensível e orgânica. A condução destacou a profunda parceria de vida e de pesquisa entre Brandão e sua esposa, Maria Alice, cujas trajetórias se cruzaram em 1964 no Movimento de Educação de Base (MEB).
O ponto central dessa união inicial ganha contornos especiais no México. O casal se casou em janeiro de 1966 e, logo em fevereiro, embarcou rumo ao país norte-americano. Contemplados com duas bolsas da UNESCO, eles integraram um grupo de cerca de 66 estudantes de toda a América Latina para fazer um curso sobre educação de adultos no Crefal (Centro Regional de Educação Fundamental para a América Latina), uma instituição de importância capital para a educação de adultos no continente. Durante nove meses, fixaram residência na charmosa cidade de Pátzcuaro, no estado de Michoacán, vivendo na Quinta San Ángel.

Esse período mexicano deu-se sob as sombras e as tensões políticas do Brasil pós-golpe militar de 1964, o que gerava enorme preocupação com familiares e com os rumos do país, embora estivessem imersos em intensa atividade acadêmica e comunitária. O cotidiano em Pátzcuaro era marcado por visitas frequentes à Ilha de Janitzio, onde habitavam pescadores e indígenas da região, cujas paisagens e rostos foram amplamente capturados pelas lentes de Brandão.
Entre anedotas afetuosas contadas pela curadora, destacava-se o bom humor de Maria Alice ao lembrar do rigor de Brandão: em vez de entregar apenas um trabalho de conclusão de curso ao término da formação no Crefal, ele escreveu dois. Um deles debatia o Método Paulo Freire, figurando na tradição oral como uma das primeiras internacionalizações das ideias freirianas na América Latina.

A etnografia e o cotidiano na Serra da Mantiqueira
A exposição também mergulha profundamente nas investigações etnográficas conduzidas por Brandão e equipe na Serra da Mantiqueira, mais especificamente no município de Joanópolis. Nessa etapa, o foco central da pesquisa residia em compreender a complexa teia de relações estabelecida entre as pessoas que habitavam a área rural e o meio ambiente ao seu redor.
A metodologia de campo conduzida por Brandão exigia um rigor minucioso e disciplinado. Ele orientava os pesquisadores a criarem mapas, desenhos e esquemas visuais detalhados para decifrar a estrutura da comunidade. Isso incluía o mapeamento completo do bairro, a localização exata das residências, os laços de parentesco que uniam os moradores e os caminhos de circulação mais frequentes no dia a dia.

Um exemplo fascinante destacado pela curadoria era o estudo minucioso sobre a circulação da carne de porco na comunidade. enquanto os homens realizavam o abate, coube às mulheres, reunidas na cozinha, a responsabilidade de decidir criteriosamente quais seriam os melhores pedaços destinados a cada família, evidenciando as dinâmicas sociais e de poder nos bastidores da vida rural.
Intimidade, ofício e objetos pessoais
Apresentados por meio de vitrines e estações de trabalho, os objetos pessoais e instrumentos de pesquisa revelam camadas profundas da intimidade e da rigorosa metodologia artesanal do casal. Nas vitrines dedicadas ao México, o público pode observar jornais da época, máscaras de uma coleção cultivada ao longo da vida e as cartas rigorosamente organizadas por Maria Alice, escritas com uma caligrafia extremamente legível que facilitava o arquivamento.
O ofício da pesquisa ganha destaque através dos equipamentos de áudio e das fitas magnéticas utilizadas nas incontáveis gravações de campo. Entre as curiosidades técnicas, destaca-se a história de uma câmera fotográfica com o fotômetro quebrado que Brandão entregou à curadora Iara Rolim, desafiando-a a aprender a fotografar improvisando e lidando com um equipamento danificado. A rotina investigativa contava ainda com a análise de folhas de contato levadas ao laboratório para inspecionar e selecionar as ampliações dos rolos de filme revelados.

Essa atmosfera era complementada por hábitos singulares do professor, como o costume de recolher elementos da natureza durante suas caminhadas — a exemplo das pequenas tampinhas das casinhas de sementes da árvore sapucaia, que muitos confundem com pregos nas exposições. O espaço também recria o escritório itinerante e a mesa de trabalho do professor, montada com montes de papéis, agendas, canetas coloridas e os livros de cabeceira que o acompanhavam inseparavelmente até mesmo nos momentos mais delicados de saúde.
Tudo isso vinha aliado a uma imensa coleção de slides antigos de 60 anos, mantidos com seus vestígios de tempo (como manchas e fungos) para que a própria fisicalidade do arquivo contasse sua história. Esse perfil único transparecia também na modéstia acadêmica de Brandão, que costumava afirmar que os únicos diplomas que fazia questão de pendurar na parede eram os de guia, escalador ou excursionista, além de certificados de primeiros socorros, rejeitando a ostentação de títulos formais e mantendo viva uma mente criativa e incansável.

A programação especial da visita à exposição "Os rostos do campo: a poética do encontro de Carlos Rodrigues Brandão" foi encerrada com a roda de conversa "Carlos Rodrigues Brandão: Encontros e Memórias", transmitida ao vivo pelo canal do IFCH-Unicamp. Apresentada pela curadora e pesquisadora Iara Rolim, a mesa reuniu grandes nomes para celebrar a trajetória do antropólogo e professor emérito da Unicamp, falecido em 2023. Ao abrir o evento, Iara destacou a emoção do momento. “Eu sou chorona mesmo, eu me emociono. Maria Silvia Duarte Hadler pesquisadora e coordenadora do Centro de Memória da Unicamp que apoiou esse pós-doutorado sobre o Brandão, que apoiou essa exposição; aliás, ela apoia tudo o que eu proponho para ela”. Priorizando as memórias e os profundos laços construídos ao longo de décadas, a roda de conversa deu voz aos amigos e discípulos do homenageado.
50 anos de amizade e parceria entre a palavra e a imagem
Amigo de Brandão há cinco décadas, desde os tempos da faculdade de psicologia na PUC do Rio, o psicanalista, fotógrafo e cineasta José Inácio Parente abriu os depoimentos da mesa rememorando a profunda cumplicidade que unia os dois. "A minha relação com Carlos Brandão tem 50 anos e isso é muito emocionante porque começou na faculdade Eu tenho a sensação exata assim que o Carlos traz a palavra e eu levo a imagem e assim foi todos os filmes que a gente fez, todos os trabalhos que a gente fez tem sempre essa ideia de que o Carlos trazer a palavra e eu trazer a imagem."

Parente detalhou a gênese curiosa do premiado curta-metragem A Trama da Rede (1980). Inicialmente, o projeto planejado era sobre as salinas de Mossoró, mas as chuvas intensas alagaram o local e frustraram os planos originais. Ao parar em Fortaleza e entrar em um ateliê de redes de dormir, Parente encantou-se pelo processo de fabricação e rodou quinze minutos de material bruto. Ao retornar ao Rio, exibiu o filme caseiramente a Brandão: após assistirem à projeção repetidas vezes até às três da manhã, Brandão viajou para São Paulo e redigiu o texto narrativo diretamente no aeroporto. O roteiro encaixou-se perfeitamente com as imagens, rendendo ao curta o primeiro prêmio no Festival Internacional de Aveiro (Portugal), além de exibições de grande repercussão em Cuba, nos festivais do Rio de Janeiro e aplausos de pé no museu de Londres.
O cineasta também compartilhou memórias das imersões de cinco anos na Festa do Divino em São Luís do Paraitinga, rito centenário onde Brandão atuava apenas como observador sensível, sem nunca fotografar, enquanto Parente capturava os cliques, o que resultou no documentário A Divina Festa do Povo. Entre as lembranças da juventude no Rio de Janeiro, destacaram-se as longas caminhadas a pé que varriam quilômetros de conversa ininterrupta, como a subida ao Morro Dois Irmãos e os trechos feitos da Gávea até o Alto da Boa Vista, onde batiam à porta de uma igrejinha para dormir. Parente também recordou um episódio dramático e marcante da repressão política, no início da ditadura militar, ao transportarem pacotes secretos com cerca de cem exemplares da cartilha clandestina Viver é Lutar (produzida pelo MEB com base nos princípios de Paulo Freire), os dois foram presos pela polícia em Goiás, vivenciando de perto as tensões da época.
A animação popular, os livros e os desafios de uma vida dedicada à educação
O professor titular aposentado da UFF, Osmar Fávero, resgatou o início de sua amizade e da militância conjunta com Brandão e José Inácio Parente, remontando ao ano de 1963 no Movimento de Educação de Base (MEB). "Eu conheço Carlos e Maria Alice desde esse ano de 1963, entraram juntos no MEB. Carlos estudou todos esses documentos que vinham de um movimento francês chamado povo-cultura, estudando o problema da animação rural, e reinventamos no Brasil um modo de trabalhar as comunidades rurais de maneira diferente da tradicional, e o Carlos ficou quase que especialista no que passamos a chamar de animação popular."

Fávero detalhou a intensa rotina de viagens e os laços familiares que se estreitaram nesse período, recordando o humor ácido e o cotidiano dinâmico do amigo, que viajava constantemente e precisava ser lembrado por Maria Alice de avisar os filhos quando e para onde iria. O professor também compartilhou os bastidores de uma parceria editorial duradoura que gerou livros e seminários marcantes. Entre eles, destacou a complexa e internacional trajetória do livro coletivo Educação e Conscientização, inicialmente concebido no CEDI, publicado clandestinamente em espanhol no Uruguai devido à ditadura, queimado na Argentina, editado na Espanha e em Portugal, até chegar finalmente ao Brasil dez anos depois.
Fávero relembrou ainda como nasceu seu próprio livro, Cultura Popular e Educação Popular: Memória dos Anos 60, após uma provocação direta de Brandão em um avião voltando de Mossoró, além de relembrar o rigor e a timidez do antropólogo na hora de apresentar textos em seminários. Com profunda emoção, Fávero encerrou seu depoimento confessando uma dor que carrega consigo. "Eu tenho uma dívida com o Carlos Brandão, uma dívida que eu não posso cumprir. Demorei muito para decidir ir até Campinas. Ele morreu antes disso. É uma das coisas que eu levo até hoje, não ter ido até Campinas me despedir de Carlos Brandão".
O pioneirismo antropológico e a "Rosa dos Ventos"
Orientanda de mestrado de Brandão há cerca de 40 anos e professora titular do IFCH Unicamp, Emília Pietrafesa de Godoi abriu sua participação enfatizando a postura ética, a generosidade e o profundo respeito que caracterizavam o mestre na pesquisa de campo. "O professor Brandão, enquanto pesquisador, nunca se colocou acima da perspectiva de seus interlocutores. Seus trabalhos são a expressão da capacidade dos homens e mulheres dos seus campos de pesquisa dizerem de suas vidas por si mesmos, de não deixarem escapar o trabalho de suas vidas das suas próprias mãos."
Emília rememorou as raízes de Brandão no sul de Minas Gerais, inspiradas pelas viagens com o tio Hernani, que despertaram seu olhar sensível para o mundo rural, as comunidades camponesas e as festividades tradicionais. Esse amor pelo sul mineiro materializou-se na fundação da mítica casa de saberes Rosa dos Ventos, em Pocinhos do Rio Verde, inaugurada no carnaval de 1995. "A Rosa dos Ventos sempre acolheu muitas pessoas, e era onde eu via muito cedo pela manhã o professor Brandão por entre as plantas a recolher os galhos caídos."
A professora destacou o pioneirismo de Brandão ao colocar no centro da teoria antropológica as religiosidades populares, as folias de reis, os congos, os moçambiques e as expressões negras do campo, rompendo barreiras tradicionais da disciplina. Emília encerrou com uma reflexão comovente sobre a vocação plural do homenageado. "Quem, como o professor Brandão, soube lidar com a matéria da vida entre as mãos e a mente? Foi assim que ele definiu certa vez a sua vocação de antropólogo, eu diria de antropólogo cidadão."
Poesia, afeto e o legado freiriano
Representando o Instituto Paulo Freire, o educador, pedagogo e músico Paulo Roberto Padilha iniciou sua participação destacando a profunda dimensão de afeto e amizade que o ligava a Carlos Rodrigues Brandão. "O Brandão foi talvez o melhor amigo que eu cultivei na minha existência por conta do que ele era e do que ele continua sendo na nossa vida... Brandão era um cara muito engraçado, ele é muito espirituoso, um ser humano gentil, acolhedor."
Padilha rememorou o engajamento histórico de Brandão nos encontros internacionais do Fórum Paulo Freire desde 1998, a autoria de artigos marcantes, como o estudo sobre Platão, Paulo Freire e o futuro, e as animadas viagens pelo Brasil, incluindo o lançamento do Memorial Paulo Freire em Angicos (RN). Ele também divertiu o público ao rememorar o lado espirituoso e "sarrista" do amigo: desde a cobrança bem-humorada sobre usar sempre o mesmo casaco em palestras até as brincadeiras envolvendo bolsas e blusinhas compradas em brechós que Brandão presenteava e redistribuía entre os colegas com tiradas filosóficas e bem-humoradas.
O educador relatou a gênese do CD Velho Amigo, gravado entre 2013 e 2014 na casa Rosa dos Ventos após musicar em um único domingo os poemas enviados por Brandão, entre eles, a composição inspirada em Paulo Freire, esse incrível. Com profunda emoção, Padilha relembrou sua última visita ao amigo dez dias antes de sua partida, quando carregou a cadeira de rodas e conversou no quarto repleto de livros. Para encerrar sua homenagem com chave de ouro, Padilha pegou o violão e entoou ao vivo as canções inspiradas nos versos de Brandão, revivendo a exata música que fez o homenageado chorar de emoção em seus últimos dias.
Ao término das falas e das interações com o público, Iara Rolim conduziu as considerações finais resgatando o futuro do espaço comunitário criado pelo professor. "A Rosa dos Ventos é uma casa que foi criada justamente para quem quisesse ir, quem quisesse estar lá por qualquer motivo, reuniões, cantorias, e agora a Rosa dos Ventos tem um projeto de continuidade que é um símbolo da generosidade dele." O registro completo da roda de conversa permanece acessível na íntegra no IFCH Unicamp no YouTube.