
Colóquio internacional revisita quatro décadas de vestibular da Unicamp
Valério Paiva
Para marcar os 40 anos da reformulação do vestibular da Unicamp, a Comvest realizou no último dia 17 de setembro, no auditório Fausto Castilho do IFCH, o colóquio internacional ‘Políticas de seleção para o ensino superior: experiências em perspectiva no contexto global’. O evento reuniu especialistas de diversas universidades brasileiras e estrangeiras para discutir os rumos das políticas de acesso ao ensino superior.
Em entrevista ao site do IFCH Unicamp para avaliar a trajetória institucional construída ao longo desse período, o coordenador geral da Comvest e professor do Departamento de História do IFCH, José Alves de Freitas Neto, destacou que a criação do órgão fortaleceu a identidade da Unicamp como uma instituição dinâmica, inovadora e sintonizada com os anseios da sociedade brasileira. "A criação da Comvest ajudou a fortalecer a identidade da Unicamp como uma universidade que buscou responder aos anseios da sociedade brasileira no sentido de ser uma universidade muito dinâmica e muito inovadora nas diferentes áreas do conhecimento."
Segundo o docente, a formulação inicial do vestibular rompeu com os modelos tradicionais baseados exclusivamente em exames de múltipla escolha. "Aquilo que o professor Rubem Alves colocou em um dos seus textos era a necessidade de acabar com a 'ditadura do xizinho' e da múltipla escolha, pois esse era o modelo de prova existente nas diversas seleções e era uma prova que não fazia pensar. Então, o vestibular da Unicamp deu um peso muito grande para a prova de redação, leitura, interpretação e contextualização, priorizando identificar o raciocínio crítico em detrimento da mera memorização." O coordenador ressaltou que, embora o vestibular tenha incorporado ajustes operacionais ao longo dos anos — como o retorno de questões de múltipla escolha na primeira fase —, a essência crítica da avaliação foi mantida na segunda fase, com um olhar atento às questões do mundo contemporâneo e ao domínio dos saberes em humanidades, linguagens e ciências.
A evolução do processo seletivo esteve permanentemente atrelada ao compromisso institucional de atenuar as disparidades educacionais do país. A concepção original da prova já trazia em seus fundamentos o objetivo de enfrentar as distorções presentes no ensino secundário. "Uma coisa a ser considerada é que um processo de seleção não é apenas uma prova apresentada, mas dialoga muito com as dinâmicas e impactos sociais. O documento original do vestibular da Unicamp fala que ele deve ajudar a corrigir as distorções e desigualdades no acesso ao então segundo grau." O professor lembrou que as próprias características do modelo de avaliação interferem nos resultados demográficos e sociais, citando como exemplo histórico o momento em que a prova de redação foi deslocada temporariamente da primeira para a segunda fase, gerando alterações na proporção de aprovação entre gêneros devido ao maior domínio textual demonstrado pelas mulheres.
Diante do desafio de ampliar a equidade, a Comvest conduziu análises estatísticas contínuas que fundamentaram a implementação de importantes políticas de ação afirmativa. A trajetória institucional avançou desde o pioneirismo do Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social (PAIIS), política de bonificação voltada a estudantes da rede pública, até a aprovação formal das cotas étnico-raciais e a criação do vestibular indígena em 2017, com vigência a partir de 2019. Essa reestruturação provocou uma mudança profunda na composição dos estudantes da universidade. Segundo dados da Comvest, os resultados são expressivos: o balanço da política de cotas mostra que no ano passado 40% dos ingressantes da Medicina eram estudantes autodeclarados pretos ou pardos.
Essa diversificação gerou desdobramentos diretos no cotidiano acadêmico, exigindo a atualização de ementas, a introdução de novas linhas de pesquisa e a incorporação de referenciais teóricos e autores antes marginalizados nos currículos universitários, como a inclusão de obras de Ailton Krenak e letras do grupo Racionais MC's nas leituras obrigatórias do vestibular. O professor José Alves ressaltou que essas escolhas legitimam e fortalecem o trabalho pedagógico dos docentes nas escolas frente a pressões conservadoras, e que a mudança já repercute a longo prazo com egressos de ações afirmativas ingressando na pós-graduação e renovando a produção científica da instituição.
Experiências de democratização e alguns dos seus efeitos
A primeira mesa redonda do colóquio internacional dedicou-se a examinar as políticas de democratização do ensino superior no cenário nacional, articulando balanços e desdobramentos práticos de ações afirmativas implementadas em grandes instituições públicas brasileiras. Na abertura dos debates, a professora Ana Maria Almeida (Unicamp) pontuou a relevância de analisar o impacto das transformações no perfil discente das universidades públicas ao longo das últimas décadas.
Em sua exposição, o professor Luiz Augusto Campos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, enfatizou os avanços e os desafios estruturais na consolidação das políticas de cotas. "As ações afirmativas mudaram a face das universidades públicas brasileiras, mas o desafio agora é garantir que a permanência e a assistência estudantil acompanhem essa transformação para que a inclusão seja plena e efetiva." A professora Bréscia Nonato, da Universidade Federal de Minas Gerais, apresentou as especificidades dos modelos de seleção seriada, destacando como essa modalidade afeta a relação entre o ensino médio e o ingresso na graduação. "A seleção seriada permite que a universidade construa um diálogo contínuo com as escolas, reduzindo a pressão do exame único e valorizando o percurso formativo do estudante."
Abordando as transformações no perfil institucional, a professora Graziela Perosa analisou as mudanças profundas recentes na composição social do corpo discente da Universidade de São Paulo. "Analisar as metamorfoses de uma grande universidade exige compreender como os novos grupos sociais tensionam as fronteiras acadêmicas e reposicionam o papel social da instituição no país." Por fim, o professor Rafael Maia (Unicamp) resgatou os quarenta anos de histórico do vestibular da instituição, avaliando o papel dos formatos de prova na seleção de candidatos e na construção da identidade acadêmica. "O vestibular da Unicamp sempre buscou alinhar o rigor acadêmico à capacidade crítica do estudante, provando que é possível selecionar com qualidade sem abrir mão da relevância social e da diversidade." As exposições convergiram no sentido de que a abertura institucional por meio de cotas, bônus regionais e processos seriados superou a mera alteração quantitativa, impulsionando uma revisão estrutural nas dinâmicas de permanência e nas práticas pedagógicas.
Transformações globais nos modos de selecionar para a educação superior
A segunda mesa redonda do colóquio trouxe uma perspectiva internacional e comparada, reunindo pesquisadores para analisar os mecanismos de acesso, seletividade, expansão e exclusão em diferentes realidades geopolíticas a partir dos modelos da Argentina, da França, da China e do México. Representando a Argentina, Sandra Ziegler, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO Argentina), apresentou o modelo de ensino superior público gratuito do país, caracterizado por um acesso formalmente aberto e irrestrito, sem exames vestibulares de entrada. A pesquisadora destacou que esse formato convive com uma "seletividade velada" que se manifesta antes da universidade, por meio da forte fragmentação e da migração crescente de setores de menores recursos para o ensino secundário privado, e no interior das instituições, gerando salas lotadas e altas taxas de evasão no primeiro ano. Em sua análise sobre os contrastes globais, pontuou que "a seleção e a não seleção não constituem categorias opostas: todo sistema seleciona, mas pode fazê-lo em momentos distintos, mediante instrumentos diferentes e com graus diversos de visibilidade."
Em seguida, o sociólogo Cédric Hugrée, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e da Universidade de Nantes, examinou a massificação do ensino superior francês e os impactos da plataforma centralizada de admissão Parcoursup. Hugrée argumentou que a expansão do acesso ocorre em paralelo a um agravamento nas desigualdades de transmissão de conhecimentos desde a escolaridade básica, tornando a evasão universitária o resultado cumulativo de trajetórias desiguais. Sobre a dinâmica do sistema francês atual, o pesquisador destacou que "a expansão massiva do acesso ao ensino superior ocorreu em um contexto de crescentes desigualdades educacionais muito antes da universidade. e é precisamente com esse paradoxo que a ruptura ocorrida no sistema francês deve ser analisada como o resultado visível de um longo processo de acesso desigual ao conhecimento."
A terceira exposição, conduzida por Vivian Weller (Universidade de Brasília), detalhou a rigidez meritocrática do sistema chinês, estruturado em torno do exame nacional Gaokao e do rigoroso filtro do Zhongkao ao término do ensino fundamental. Weller explicou que o modelo é sustentado por uma rede de escolas de elite (key schools) e internatos com jornadas de estudo intensas de até 14 horas diárias, ressaltando a pressão extrema exercida sobre os estudantes e as famílias ao apontar que "o Gaokao não é apenas um exame, mas um ritual de passagem fundamental na vida dos jovens chineses, onde a concorrência pelas universidades de elite do grupo Double First Class impulsiona investimentos precoces e uma imensa rede de educação complementar."
Encerrando as apresentações, a pesquisadora Mariam Lloyd, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), abordou o panorama de escassez de vagas no México e detalhou o recente colapso na tentativa da instituição de aplicar um exame de admissão 100% online. O processo foi marcado por fraudes em massa mediadas por inteligência artificial, repercussão na imprensa internacional e pela necessidade de reaplicação presencial para milhares de candidatos. Sobre os limites e os riscos dessas iniciativas, Lloyd concluiu que "a demanda reprimida por ensino superior de qualidade impulsiona a fraude em massa quando as instituições subestimam os desafios tecnológicos e de segurança, evidenciando que a expansão formal precisa vir acompanhada de opções reais, financiamento adequado e vagas públicas suficientes."
Perspectivas e desafios: o papel da universidade pública
Para encerrar o balanço comemorativo dos quarenta anos da Comvest, o professor José Alves alertou para o principal obstáculo contemporâneo enfrentado pelas universidades públicas, marcado por discursos que buscam questionar sua relevância e seu financiamento. "Acho que o maior desafio hoje para a Comvest e para as universidades públicas em geral é enfrentar o discurso crescente de que a universidade pública não seria mais necessária."
Diante de narrativas voltadas a desvalorizar a relevância social da ciência e da educação superior, o docente reforçou o papel insubstituível da instituição na preservação democrática e na formação cidadã. "A universidade é central para uma verdadeira democracia, pois aqui se aprende a lidar com o contraditório, debater e vencer pelo argumento. Todos os espaços onde o contraditório existe sofrem críticas, mas a universidade é o espaço da plenitude do pensamento, da autonomia e da reflexão. Nosso maior desafio hoje é continuar sendo atraente e estimulando os jovens a estar na universidade pública."