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Omar

O Legado de Omar Ribeiro Thomaz

  • Comunicação

A comunidade do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas despede-se com profundo pesar e imensa gratidão do professor titular Omar Ribeiro Thomaz, falecido neste 12 de outubro de 2026, na cidade de Campinas.

Nascido no Rio de Janeiro em 1965, Omar construiu uma trajetória intelectual singular e cosmopolita. Formou-se em Arte Dramática no Estudio de Formación de Actores Nancy Tuñón (1988) e em História da Arte pela Universitat de Barcelona (1989), antes de retornar ao Brasil para consolidar sua formação na antropologia, obtendo o título de doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo em 1997.

Sua trajetória foi guiada por um compromisso intransigente com os direitos humanos e com a defesa intransigente da dignidade humana. Entre suas principais obras publicadas, organizadas e edições destacam-se marcos como Ecos do Atlântico Sul: Representações sobre o Terceiro Império Português (Editora UFRJ, 2002) — reconhecido pela Anpocs, em 2003, como a melhor obra científica do ano —, além de livros fundamentais como Da crise às ruínas: o impacto do terremoto no ensino superior no Haiti (em coautoria com Sebastião Nascimento; Huya, 2013), Os outros da colonização. Ensaios sobre o colonialismo tardio em Moçambique (organizado com C. Castelo, S. Nascimento e T. Cruz e Silva; Imprensa de Ciências Sociais, 2012) e Conflitos e religiosidades: Israel, Palestina e estudos judaicos no Brasil (organizado com M. Gherman e K. Schurster; EDUPE/IBI, 2021). Mais recentemente, em maio de 2026, integrou o lançamento da obra coletiva Antropologias: lições de uma história inquieta (Editora Unicamp). Omar também contribuiu criticamente para o pensamento brasileiro ao assinar edições e apresentações de obras clássicas, como Interpretação do Brasil, de Gilberto Freyre (Cia das Letras, 2001), e A Dinâmica da Cultura, de Eunice Ribeiro Durham (Cosacnaify, 2004).

Membro do Departamento de Antropologia do IFCH Unicamp desde 2001, onde chegou a professor titular em 2026, Omar exerceu um papel fundamental na internacionalização e no rigor crítico do ensino, da pesquisa e da gestão universitária. Integrou o Centro Brasileiro de Análise e Pesquisa (Cebrap) e expandiu suas fronteiras acadêmicas como pesquisador e professor convidado em instituições de prestígio internacional, a exemplo de seus pós-doutorados no Max Planck Institute for Social Anthropology e na Universidade Livre de Berlim, além de passagens pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, pela Universidade Eduardo Mondlane e pela University of Massachusetts Boston, entre outras. Na linha de frente do compromisso público da universidade, atuou como coordenador do Projeto Observatório Covid-19 na Unicamp e integrou ativamente a Cátedra Sérgio Vieira de Mello na universidade, iniciativa do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

Dedicado à antropologia das guerras, dos conflitos e das transformações sociais, Omar desbravou horizontes. Em um momento em que poucos antropólogos brasileiros realizavam pesquisas em contextos africanos e caribenhos, seus trabalhos pioneiros em Moçambique, Guiné-Bissau e Haiti ajudaram a consolidar e institucionalizar um campo de investigação que hoje mobiliza pesquisadores em todo o país. Seus projetos abrangeram investigações comparadas de fôlego sobre memória, desaparecimentos, humanitarismos, ruínas e a longa duração dos conflitos.

Mais do que um pesquisador brilhante, Omar era uma pessoa profundamente solidária com todos ao seu redor, tanto dentro quanto fora da universidade. Esteve sempre ao lado de povos que vivem sob o jugo da opressão colonial, erguendo sua voz e somando esforços em defesa da soberania e da dignidade da população da Palestina, do Haiti e de outras nações em luta contra a dominação e a violência de Estado.

Na convivência diária do IFCH, era imensamente querido pela comunidade de estudantes, funcionários e docentes. No Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, no Programa de Pós-Graduação em História e no Doutorado em Ciências Sociais, Omar formou literalmente toda uma geração de cientistas e professores. Foi um orientador generoso, transformador e incansável, tendo orientado mais de cinquenta dissertações e teses cujos campos de estudo alcançaram Moçambique, África do Sul, Namíbia, Angola, Tanzânia, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Senegal, Haiti, República Dominicana, Bósnia, Sérvia, Hungria, Rússia, Albânia, Israel e Palestina.

Seu compromisso com a justiça social transbordava a sala de aula. Omar Ribeiro Thomaz participou ativamente do Programa Emergencial Pró-Haiti, iniciativa que viabilizou a chegada de estudantes haitianos às universidades brasileiras, e dedicou-se com paixão à criação de oportunidades reais de circulação internacional para estudantes negros, indígenas e periféricos.

O professor Omar Ribeiro Thomaz deixa como legado uma atuação corajosa e engajada dentro e fora da universidade. Sua partida deixa uma lacuna irreparável nos corredores do IFCH e nos corações de colegas, amigos e gerações que tiveram o privilégio de conhecê-lo como cientista e de conviver com seu afeto e sua amizade.