
Estudantes e pesquisadores do IFCH realizam intercâmbio acadêmico nos Estados Unidos pelo Programa Abdias Nascimento
Valério Paiva
Um grupo de estudantes de pós-graduação e pesquisadores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp encontra-se nos Estados Unidos para uma temporada de intercâmbio acadêmico no âmbito do Programa de Desenvolvimento Acadêmico Abdias Nascimento, uma iniciativa da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (Secadi/MEC) em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
O grupo integra o projeto Hip-hop 50: Ações Afirmativas e as culturas negro-juvenis na universidade, coordenado pela professora Taniele Rui, do Departamento de Antropologia. A delegação atual conta com a participação da pesquisadora Daniela Vieira e do professor Aldair Rodrigues, do Departamento de História do instituto. A oportunidade é destinada a alunos matriculados em todos os campi da Unicamp, da USP e da UFBA, fortalecendo a cooperação acadêmica internacional.
Esta é a terceira turma enviada pelo programa desde o seu início, em 2024. Além da parceria consolidada com a University of Maryland, Baltimore County (UMBC), a mobilidade deste ano ampliou-se para a Universidade de Porto Rico, destino de dois estudantes da nova turma.
De acordo com a pesquisadora Daniela Vieira, co-coordenadora da linha de pesquisa Hip-Hop em Trânsito, o programa cumpre um papel fundamental de reparação institucional ao combater as disparidades na circulação acadêmica. "Quando a gente olha a questão da internacionalização, ainda tem um abismo muito grande entre os estudantes negros e os estudantes brancos em relação a essa mobilidade estudantil", aponta. Para ela, o intercâmbio surge justamente com o propósito de "equalizar essas diferenças".
Para os estudantes, a experiência representa um salto na circulação internacional de seus trabalhos e na imersão cultural. A mestranda em Sociologia Ana Beatriz, que teve sua qualificação aprovada semanas antes do embarque, relata a intensidade da rotina acadêmica. Ela desenvolve sua pesquisa na área de sociologia da cultura e estudos de hip-hop, analisando comparativamente as canções das rappers Sharylaine e Duquesa. "Foi uma experiência muito, assim, extraordinária, apresentar a pesquisa em inglês na universidade aqui nos Estados Unidos, em Baltimore", relata Ana Beatriz sobre o seminário inicial realizado com os intercambistas e professores da UMBC, que contou com a recepção da docente Tania Saunders.
O cronograma de Ana Beatriz nos EUA inclui ainda pesquisas de campo em arquivos de Nova York, como o Hip Hop Museum e a Biblioteca Pública de Nova York, além de participação em uma conferência de Hip Hop Studies na Universidade Howard e dedicação à escrita da dissertação, com defesa prevista para o começo de 2027.
Também integrante da turma, o mestrando em Sociologia da Unicamp Gustavo Lima desenvolve sua pesquisa sobre a cultura Sound System como um movimento afrodiaspórico e de contracultura na cidade de São Paulo. Realizando seu intercâmbio na University of Maryland, Baltimore County, ele avalia a experiência como transformadora e destaca que o período tem sido essencial tanto para o aprimoramento profissional e acadêmico quanto para a fluência no inglês por meio do contato cotidiano com a língua. Gustavo aponta que é fascinante observar como as cidades se conectam através da cultura afrodiaspórica e de suas sonoridades, manifestadas visualmente em pinturas e grafites que ecoam as cores do reggae e a força do movimento rastafari no espaço urbano.
Além disso, o pesquisador ressalta o ganho inestimável de encontrar bibliografias e foto-livros raríssimos, difíceis de acessar no Brasil, revelando que materiais completamente inéditos para sua tese já foram mapeados e serão analisados futuramente. Para Gustavo Lima, além dos congressos e da troca com novos professores e pesquisadores, todo esse acervo representará um salto de grande enriquecimento acadêmico. "É uma Salvador, vamos dizer assim, porque a gente tem referenciais estéticos da imagem do negro de inúmeras maneiras. É muito bom poder sonhar tudo isso, e perceber que a realidade se tornou maior que o sonho."