
Conceição Evaristo na Unicamp
Valério Paiva
A escritora e intelectual Conceição Evaristo realizou uma intensa e marcante agenda na Unicamp e em Campinas entre os dias 6 e 7 de agosto. No primeiro dia, ela esteve na universidade para uma visita técnica ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) e, à noite, ministrou uma concorrida Aula Aberta que reuniu quase mil pessoas, com forte presença de jovens de escolas públicas da região. No dia seguinte, a programação estendeu-se pela cidade com passagens pela Fazenda Roseira e pela Casa de Cultura Tainã.
A vinda da autora ocorreu por iniciativa e convite de pesquisadores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, contando com o apoio da Comvest e da Adunicamp. A histórica visita coincidiu com a aprovação, em 4 de agosto, pelo Conselho Universitário da Unicamp, da concessão do título de Doutora Honoris Causa à escritora, homenagem que será entregue em data oportuna.
A passagem de Conceição pela instituição integra as ações do Projeto Afro Memória, parceria entre o Afro Cebrap (núcleo de pesquisa, formação e difusão sobre a temática racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento - Cebrap), o AEL e pesquisadores do IFCH, que busca aproximar a universidade dos movimentos sociais e das produções de conhecimento negras.
O professor Aldair Rodrigues, do Departamento de História do IFCH e um dos idealizadores do projeto, explica que o objetivo central sempre foi o de descentralizar as referências acadêmicas e dar visibilidade ao protagonismo negro na história do Brasil. "Essa aula se insere em um esforço mais amplo que eu, Mário, Paulo, Daniela e Jaqueline temos desenvolvido, há seis anos, em parceria com o Afro-Cebrap, para ampliar as referências presentes na universidade. O que buscamos, em última instância, é ampliar as formas de produção do conhecimento, incorporando registros do protagonismo negro produzidos ao longo da história do Brasil.".
O professor Aldair destaca que essa rede de atuação já resultou na incorporação de 18 conjuntos documentais inéditos ao AEL, incluindo acervos do movimento negro, do feminismo negro, do Movimento Negro Unificado, de ativistas e da cultura hip hop. Para o pesquisador, a vinda de Conceição Evaristo faz parte desse movimento de ampliar as referências a partir das quais a universidade pensa e analisa o país, reconhecendo-a como uma importante intérprete do Brasil em um campo que, historicamente, relegou vozes negras às margens dos cânones literário, historiográfico e sociológico..
Para além dos muros da Universidade, a visita de Conceição Evaristo à Unicamp buscou estreitar laços fundamentais com polos de resistência cultural negra da região. Essa atuação em rede é impulsionada pela parceria estratégica com o Afro-Cebrap, que desde o início tem dado sustentação metodológica e institucional aos projetos de resgate da memória e do protagonismo negro em articulação com o IFCH.
Conceição Evaristo esteve na Casa de Cultura Tainã e na Fazenda Roseira para interagir diretamente com esses espaços de valorização da cultura e da identidade negra. A Fazenda Roseira, espaço tradicional coordenado por Alessandra Ribeiro, já mantém relações com o IFCH por meio de disciplinas de estágio e projetos de extensão coordenados pelo próprio professor Aldair Rodrigues e por outros docentes, servindo como laboratório para a formação dos estudantes.
Da mesma forma, a Casa de Cultura Tainã, liderada Antonio Carlos dos Santos Silva, o TC, atua há décadas como um polo crucial de resistência cultural e artística em Campinas, mantendo vínculos estreitos com a Unicamp através de estudantes e pesquisadores, a exemplo dos estudantes Isabela da Silva e Vinícius Brandão, que participam ativamente das ações no território.
Nos dois locais, a presença de Conceição gerou encontros emocionantes, marcados por rodas de conversa e confraternizações que reuniram dezenas de lideranças locais dos movimentos negros da região. Como resume o professor Aldair. "A gente se preocupa o tempo todo com esse alargamento da universidade. A relação com grupos e territórios externos fomenta a nossa produção de conhecimento aqui dentro, mas principalmente nos ajuda a levar acúmulos, práticas e saberes para fora dos muros da instituição."
A Aula Aberta e Escrevivência
O ápice da visita ocorreu no auditório da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), em uma Aula Aberta sobre literatura e sociedade brasileira que reuniu um público recorde — formado por universitários, pesquisadores e estudantes do ensino fundamental e médio. O evento ganhou um peso histórico especial por coincidir com as comemorações dos 40 anos do vestibular da Unicamp, conforme celebrou o diretor da Comvest e professor do Departamento de História do IFCH, José Alves de Freitas Neto. "Estamos fazendo 40 anos de vestibular da Unicamp e é a primeira vez que recebemos uma autora em nossa casa; isso para nós já é um motivo de uma distinção e de uma felicidade imensa. A sua obra tem uma potência de transformar vidas, de transformar olhares e a sociedade. Como a senhora disse agora pouco: a gente não faz milagre, mas de pouquinho em pouquinho a gente muda as coisas", afirmou o professor.
Com a obra Olhos d’água integrada à lista de leituras obrigatórias do vestibular, a presença de Conceição Evaristo na Comvest representou uma acolhida simbólica da porta de entrada da universidade a uma das maiores intelectuais do país.
Diante de um auditório lotado, e com transmissão simultânea para contemplar o público que acompanhou de fora, Conceição Evaristo refletiu sobre os vazios do cânone literário tradicional. A autora apontou como a literatura brasileira historicamente construiu personagens negras, indígenas e mulheres por meio de estereótipos redutores e desumanizantes, citando exemplos clássicos como O Cortiço e Gabriela, Cravo e Canela.
Para a escritora, enquanto a literatura oficial insistia em apagar a fecundidade simbólica desses sujeitos, a ficção precisava se reconfigurar. É nesse espaço de ruptura que nasce o seu conceito fundante. "A palavra escrevivência vem de 'escrever-se vendo', mas é semantizada pelo processo de escravização. Aquela voz da mulher escravizada, que era obrigada a contar histórias para ninar os filhos da Casa-Grande, hoje se torna autônoma. A escrevivência das mulheres negras não é para adormecer os da Casa-Grande, mas para acordá-los de seus sonos injustos", declarou a autora.
Explicando que a literatura não possui compromisso estrito com a verdade factual, Conceição defendeu o texto literário como um poderoso contradiscurso capaz de desmontar as amarras da história oficial e devolver a humanidade aos sujeitos historicamente silenciados. Encerrando sua fala, a escritora celebrou a presença da juventude acadêmica e deixou um recado de acolhimento mútuo. "Quando vejo uma juventude como vocês, que me lê e trabalha com meus textos, isso significa que a minha vida valeu a pena, valeu a luta. Eu aprendo muito com os mais jovens, que têm possibilidades de pesquisa que a minha geração não teve; por isso, peço que me acolham sempre e não me deixem sozinha."
Visita Técnica ao AEL e Cooperação com a Casa Escrevivência
Além das atividades públicas, um dos momentos mais ricos da passagem de Conceição Evaristo pela Unicamp ocorreu nos bastidores do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) do IFCH. Acompanhada de bibliotecárias e assessoras que atuam na Casa Escrevivência (espaço fundado pela autora em 2023 no Rio de Janeiro), a escritora foi recebida por servidores especializados e pela direção do arquivo para conhecer de perto os laboratórios de preservação e as áreas de guarda documental.
O acervo pessoal da escritora permanecerá sob sua guarda no Rio de Janeiro, cujo projeto de digitalização é coordenado pelo pesquisador Paulo Ramos, pós-doc do IFCH e integrante do Afro-Cebrap, e por uma equipe local. No entanto, a visita técnica serviu para estreitar laços de cooperação e partilha de saberes com a excelência técnica acumulada pelo AEL ao longo de décadas. “A presença de Conceição fortalece a conexão da intelectualidade negra com o projeto Afro memória como um ação afirmativa, bem como fortalece vínculos comunitários em torno da Unicamp”, afirma Paulo Ramos.
A supervisora de difusão e preservação do AEL Castorina Augusta Madureira de Camargo detalhou o interesse da comitiva durante a passagem pelo laboratório e pelas estantes deslizantes. "Ela ficou muito interessada no nosso trabalho de conservação dos documentos e quis visitar a nossa área de acervo para saber como manter a documentação que ela tem na Casa Escrevivência. Nós levamos elas ao laboratório, expliquei sobre o nosso trabalho de estabilização do processo de degradação dos documentos. Ela perguntou se a gente abre para estágio; eu senti que elas ficaram bem interessadas em vir aqui fazer um estágio conosco na sessão para entender melhor esse trabalho. Isso abriu possibilidades para ela ver como vai guardar essa documentação lá na Casa Escrevivência e talvez formar uma parceria com a gente nessa troca de conhecimentos e saberes", pontuou Castorina.
Já Humberto Celeste Innarelli, coordenador do arquivo, destacou a atenção minuciosa da autora ao abrir armários, examinar suportes, como a migração necessária de fitas magnéticas, disquetes e DVDs, e debater procedimentos práticos. Innarelli ressaltou o desdobramento da visita. "Conhecer o laboratório e a área de acervo foi importante para ela enxergar a potencialidade do que pode replicar lá no acervo dela no Rio de Janeiro. Deixamos as portas abertas para futuras parcerias no sentido de fornecer treinamento, embasamento técnico e até mesmo um intercâmbio de profissionais."
Durante o percurso pelas coleções do AEL, Conceição Evaristo reconheceu publicações e documentos de sua própria geração e de colegas de militância, como obras de King Nino Brown, publicações do Quilombhoje e acervos do Movimento Negro Unificado (MNU), Geledés e Reginaldo Bispo. A equipe técnica também pontuou a serenidade e a generosidade da autora, que fez questão de autografar livros dos servidores, coroando o encontro com um gesto de profundo reconhecimento ao trabalho de preservação da memória.
A relevância da visita sob a ótica institucional foi sublinhada pelo diretor do arquivo e professor do Departamento de Antropologia da Unicamp, Gustavo Rossi. Segundo o docente, a presença de Conceição dialoga diretamente com as raízes históricas do ativismo negro no país. "Muitos dos acervos que hoje o AEL tem dialogam e fazem parte da própria geração da Conceição Evaristo. Parte do que mobilizou a militância e o ativismo negro do Brasil foram colegas de geração dela, atuando no mesmo contexto. O Quilombhoje, por exemplo, foi onde Conceição Evaristo e os Cadernos Negros viram a estreia dela como escritora", ressaltou Rossi.
O diretor do Arquivo pontuou que o esforço contínuo do Afro-Memória, que já incorporou 18 conjuntos documentais inéditos ao AEL, cumpre um papel fundamental de combate às assimetrias sociais e de garantia do direito à memória. "Uma das faces da desigualdade também aparece na maneira como determinados grupos têm menor facilidade e condições de preservar seus próprios arquivos. Ter um espaço onde se reúna essa documentação da experiência negra no Brasil, de intelectuais, ativistas e instituições, é também uma forma de combater essa desigualdade do ponto de vista simbólico e do direito à memória. É uma espécie de luta pela possibilidade da preservação da memória dos grupos afro-brasileiros", concluiu Gustavo Rossi.
A passagem de Conceição Evaristo pela Unicamp consolida um marco na valorização da memória negra e na ampliação das referências literárias e históricas dentro e fora da universidade. Para quem não pôde acompanhar presencialmente ou deseja rever as reflexões da autora sobre a literatura, a sociedade e a força da escrevivência, a íntegra da Aula Aberta realizada na Comvest está disponível ao público.
O link com o vídeo completo da palestra no YouTube pode ser acessado aqui.