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IFCH homenageia a professora Ângela Araújo

  • Comunicação

No dia 25 de junho, o Auditório Fausto Castilho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp foi palco da homenagem à professora Ângela Maria Carneiro Araújo, celebrando quatro décadas de intensa dedicação da docente ao ensino superior, à pesquisa e à militância política e feminista na instituição.

Com uma trajetória que se confunde com a própria história institucional do IFCH desde 1978, quando atuou como pesquisadora auxiliar após se graduar em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília, Ângela Araújo construiu um legado incontestável nas áreas de sociologia do trabalho, relações de gênero, sindicalismo e economia solidária. 

Sua tese de doutorado, defendida na Unicamp em 1994 sob o título Construindo o consentimento: corporativismo e trabalhadores no Brasil dos anos 30, tornou-se uma referência fundamental nos estudos sobre o Estado e o movimento operário brasileiro. Ao longo da carreira, a docente integrou o Departamento de Ciência Política a partir de 1985 e exerceu papéis de liderança expressivos, como a direção do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), a chefia do departamento e a coordenação do Programa de Doutorado em Ciências Sociais, além de atuar ativamente no Núcleo de Estudos de Gênero (Pagu). 

No âmbito nacional e internacional, destacou-se como presidente da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET), vice-presidente da Associação Latino-Americana de Estudos do Trabalho (ALAST) e membra do conselho executivo da Latin American Studies Association (LASA). 

O diretor do IFCH Unicamp, Ronaldo de Almeida, destacou que Ângela sempre foi uma referência de liderança e suporte nos momentos difíceis e sensíveis do instituto, personificando um quadro do instituto no seu sentido pleno com uma postura política correta e leal. Ele recordou ainda de quando foi seu aluno em Política III e marcou-se pela leitura de Política como Vocação. 

Regina Facchini, representando a pós-graduação em Ciências Sociais, apontou o papel decisivo de Ângela na consolidação da linha de trabalho, política e sociedade, contabilizando um universo de 32 teses e projetos de doutorado vinculados à sua trajetória. Já a professora Luciana Tatagiba, coordenadora da pós em Ciência Política, sublinhou o ineditismo de Ângela ao introduzir os estudos do trabalho na área, ajudando a moldar a identidade de heterodoxia rebelde do programa. 

A primeira mesa do evento, dedicada ao papel de Ângela como orientadora e coordenada pela professora Bárbara Castro, revelou a faceta mais íntima e formativa da docente. Bárbara relatou como o rigor intelectual de Ângela exigia um trabalho sério, mas sempre acompanhado de uma perspectiva feminista que recusava falsas escolhas entre a vida pessoal e a carreira. 

Os ex-orientandos compartilharam relatos que evidenciaram a exigência e o acolhimento da professora. Carol Bonomi rememorou a firmeza da professora ao vigiar a reitoria na greve histórica de 2016 para proteger os estudantes, além de seu acolhimento humanizado no cotidiano e nos períodos de puerpério. No mesmo sentido, André Krein destacou a atenção minuciosa dispensada pela orientadora em cada correção de texto, ensinando a olhar os objetos de pesquisa com profundidade crítica, enquanto Eliane Amorim relembrou o rigor inicial que impulsionou sua formação empírica no setor têxtil, contando com o acompanhamento direto de Ângela em entrevistas de campo. Por fim, Thaíssa Proni  creditou sua formação na teoria relacional do Estado e no diálogo interdisciplinar entre direito, economia e ciência política aos ensinamentos da professora, que também esteve presente em momentos de luto e apoio pessoal. 

A segunda mesa da tarde, sob a coordenação da professora Andréia Galvão, reuniu parceiros de longa data de diferentes instituições e áreas do conhecimento. Andreia destacou o pioneirismo de Ângela ao introduzir os estudos de gênero na sociologia do trabalho. Marcia Leite relembrou a parceria de décadas desde os anos 1970 e os projetos temáticos da Fapesp voltados a fábricas recuperadas e economia solidária.

Jacob Lima enfatizou a integração bem-sucedida entre os programas da UFSCar e da Unicamp em seminários conjuntos marcados pelo bom humor e estilo característicos de Ângela, ao passo que José Dari Krein apontou o compromisso ético e político da docente com a transformação social, destacando como a tese dela reorientou suas próprias análises sobre o sindicalismo. 

Iara Belelli e Adriana Piscitelli trouxeram a memória das lutas no Coletivo Feminista de Campinas desde os anos 1970 e a fundação da área de gênero e trabalho no Pagu, onde Ângela produziu reflexões pioneiras sobre exploração e trabalho sexual. 

Além disso, Leda Gitahy resgatou episódios de resistência coletiva, desde a expulsão de interventores e a defesa da Universidade contra a polícia até grandes projetos internacionais de pesquisa em rede. E Raquel Meneguello recordou a trajetória compartilhada desde o antigo conjunto de ciência política em 1985 e a defesa intransigente liderada por Ângela para preservar a autonomia do doutorado em Ciências Sociais contra a fragmentação disciplinar, destacando seu papel articulador na defesa da Unicamp.

Ao iniciar seu discurso de agradecimento, a homenageada revelou o misto de afeto e bom humor com que recebeu a iniciativa. “Eu fiquei meio engasgada, acho que eu não consegui nem falar direito com ele no telefone por emoção, né? E também por um um sentimento assim de que 'ai, tão achando que eu vou embora de uma vez', né? Eu não tô pensando assim dessa maneira tão radical na aposentadoria, então vamos ver, né, como é que a coisa anda.”

A professora Ângela revisitou momentos decisivos de sua trajetória, explicando o que a motivou a cruzar as fronteiras das disciplinas. “Eu queria sempre expandir um pouco a minha visão, né, do mundo das ciências sociais. Por isso que penso enfim mais em ciências sociais, penso também em política porque é uma coisa que não só eu pesquiso, mas eu milito, não tem jeito para meu sangue”. 

Ela destacou de forma marcante a experiência de pesquisa e apoio junto ao povo indígena Yanomami em Roraima na década de 1970 — um episódio traumático de violência estatal contra os povos originários que mudou os rumos de sua vida acadêmica. “Fiquei tão revoltada com aquilo que eu falei: 'tenho que entender de política, o que que esse governo, o que que esse estado tá fazendo, né?' Então vou fazer ciência política, pronto, aí eu vou mudar tudo.” 

Ângela Araújo também relembrou sua dedicação à disciplina de estágio na licenciatura, detalhando o esforço de ir além da mera repetição de relatos e buscar a essência da docência. “Eu queria na realidade trabalhar com eles, as alunas e alunos do estágio, 'aprender a ensinar'. Na minha cabeça era isso que eu tinha que tentar passar para eles: como é que aprende a ensinar e com que eles podem trabalhar.”