
Escola Temática ACRAAE-LAR consolida rede internacional de pesquisa sobre religião e laicidade
Valério Paiva
Entre os dias 22 e 29 de abril, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp sediou a Escola Temática ACRAAE-LAR, evento organizado pelo Laboratório de Antropologia da Religião (LAR) que reuniu pesquisadores de quatro países para diferentes atividades de campo na universidade e na cidade. Esta edição é um resultado direto do seminário Laicidade na Universidade: sentidos e controvérsias, realizado pelo laboratório em novembro de 2025, e integra o projeto Antropologia das Circulações Religiosas África-América-Europa (ACRAAE), coordenado pela Universidade Aix-Marseille, e o projeto de ensino, pesquisa e extensão Religião no Campus da Unicamp: laicidade, liberdade e conflitos, do LAR.
Ao contrário dos congressos tradicionais, a iniciativa integrou oficinas técnicas de uso de imagens e audiovisual na pesquisa etnográfica a uma agenda intensiva de visitas de campo a espaços religiosos de Campinas, unindo a produção acadêmica à experiência direta com a pluralidade religiosa da região.
Organizada por Guilherme Arduini, Mariana de Carvalho Ilhêo e Olívia Bandeira, membros do Laboratório de Antropologia da Religião, a iniciativa consolidou uma cooperação internacional entre o laboratório do IFCH e pesquisadores franceses, canadenses e portugueses vinculados à Universidade Aix-Marseille, na França, à Universidade de Montreal, no Canadá, e à Universidade de Lisboa, em Portugal.
A estrutura da Escola Temática contou com o apoio da Secretaria de Eventos do IFCH, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) e da Proa - Revista de Antropologia e Arte (Unicamp), além do apoio de instituições como o CNRS (França), o Instituto IDEAS, a Universidade de Montreal e a Universidade de Lisboa, que viabilizaram a vinda dos pesquisadores estrangeiros.
Ao todo, a Escola Temática ACRAAE-LAR reuniu 34 pesquisadores, sendo 17 do Brasil, sobretudo da Unicamp, e 17 vindos de instituições de França, Canadá e Portugal. A metodologia priorizou a prática coletiva, levando o grupo a percorrer 15 espaços religiosos de Barão Geraldo, incluindo também locais emblemáticos como o Mercado Municipal de Campinas.
Desde o primeiro dia, os participantes conheceram espaços de fé na região de Campinas em grupos mistos e multilíngues, reunindo pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Essa colaboração foi viabilizada pelo grupo institucional de formação ACRAAE, que há seis anos articula parcerias entre o laboratório IDEAS e o LPUD (Instituto de Lazer de Pesquisa e Desenvolvimento), ambos da Marseille University, além das universidades de Montreal (Canadá) e Lisboa (Portugal), organizando seminários e estágios de pesquisa de campo em diversos países.
Durante o intervalo do último dia de atividades, a reportagem conversou com as organizadoras Mariana de Carvalho Ilhêo e Olívia Bandeira, além dos pesquisadores visitantes Christophe Pons, Ronald Apolinário e Maïa Guillot. Conforme detalhou Christophe Pons, diretor do laboratório IDEAS (CNRS), já existia uma busca por parcerias para a realização de pesquisas sobre a temática antropologia, religiosa e política no Brasil. “Havia a ideia de fazer este tipo de pesquisa, de trabalho de campo, de trabalho coletivo, em parceria com uma instituição no Brasil, mas está precisava de procurar e, por uma boa coincidência, havia um encontro com as pessoas de São Paulo através dos centros de CNRS também lá, e havia esta oportunidade de nós encontrarmos o laboratório do LAR e foi uma experiência, pouco a pouco, e na realidade foi uma experiência fantástica, também porque havia uma parceria entre Estudantes do canadense, francês e brasileiros, que é uma sinergia mesmo entre eles, que funcionava muito bem”, relata Christophe Pons.
A doutoranda Mariana de Carvalho Ilhêo, que coordena o Laboratório de Antropologia da Religião desde 2025 e acompanhou a evolução do grupo desde sua graduação na Unicamp, explica que a estrutura do LAR permite um acolhimento que vai desde o aluno de iniciação científica até o pesquisador sênior:
"O LAR funciona desde 2009, é um grupo de pesquisa que reúne graduandos, pós-graduandos e pesquisadores e professores titulares. Temos algumas linhas de pesquisa, como rituais, gênero e política, religião e meio ambiente. Nos reunimos mensalmente com reuniões gerais, do grupo, internas, onde a gente discute trabalhos nossos ou externos, quando recebemos convidados. E também mensalmente a gente faz reuniões segmentadas, então as reuniões das linhas e reuniões do projeto de extensão."
As visitas de campo percorreram diferentes espaços em Campinas e região, selecionados para exibir a diversidade das infraestruturas da fé. Conforme explicou Mariana Ilhêo, a curadoria buscou mostrar desde igrejas menores até grandes estruturas, evidenciando as diferentes formas de organização e frequência desses locais.
Para Olívia Bandeira, pós-doutoranda e pesquisadora do LAR, a mediação com esses grupos foi viabilizada pelo protagonismo dos alunos da Unicamp. "Os estudantes aqui da Unicamp foram fundamentais para essa organização e para esse diálogo com os grupos religiosos, porque vários deles já tinham relações prévias. Eles puderam aprender na prática como se responsabilizar pelas suas ações em campo e tomar cuidado com o outro, os interlocutores, questões éticas que a gente discutiu bastante.
Seminário Internacional
A imersão culminou no Seminário Internacional "Religião, política, pluralidade religiosa, laicidade", realizado no dia 28 de abril. O evento estabeleceu um quadro comparativo entre Brasil, Canadá, Portugal e França, transformando as vivências de campo em conceitos e discutindo a laicidade como valor cívico e proteção social frente à intolerância.
A primeira mesa, focada nas tensões entre a moralidade cristã e o multiculturalismo nas Américas, contou com a participação de Ronaldo de Almeida (Departamento de Antropologia, IFCH Unicamp), Géraldine Mossière (Université de Montréal) e Carlos Steil (Departamento de Antropologia, IFCH Unicamp).
Na sequência, a segunda mesa explorou os desafios da diversidade em países de herança católica na Europa e as circulações religiosas. Participaram Sophie Bava (AMU), Christophe Pons (AMU), Clara Saraiva (Universidade de Lisboa), Maïa Guillot (AMU) e Ana Beatriz Gasquez Porelli (IFCH Unicamp/IFSP-Jundiaí).
Oficinas e Visitas
A formação incluiu ateliês de produção audiovisual realizados em parceria com a Revista Proa. Segundo Maïa Guillot, pesquisadora da Universidade de Aix-Marseille, a Escola teve o mérito de unificar a pesquisa internacional de ponta e a extensão universitária, destacando o papel central da linguagem visual para a nova geração. "A especificidade dessa escola deste ano é porque realmente juntou dois programas: o programa ACRAAE e o programa de extensão de pesquisa do LAR. Houve um trabalho enorme da coordenação deste projeto aqui, da Mariana, da Olívia, do Guilherme e outras pessoas para poder encaixar todo mundo nesse projeto de pesquisa de religião do campus e em Barão Geraldo."
Maïa também destacou que a experiência de campo superou a mera observação técnica, criando laços humanos. "Os estudantes foram fazendo a pesquisa dentro desses lugares, mas também criaram contatos com pessoas de dentro das igrejas, dos terreiros, da mesquita. Foram depois fazendo entrevistas com as pessoas. Então tiveram esses momentos de trabalho de campo em grupos, mas também depois se organizaram para continuar a relação etnográfica, isso é muito interessante e intenso."
Ronald Apolinário de Lira, professor adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pesquisador de pós-doutorado na Unicamp, descreveu o impacto de sair do modelo tradicional de sentar e ouvir, destacando a abertura para novas experiências. "É a minha primeira experiência nesse modelo. Eu nunca tinha participado de um modelo aberto assim e ao mesmo tempo não tão aberto. Você tem uma nova forma de organização onde você maximiza experiências. Eu acho que é o primeiro pontapé que tira a gente um pouco dessa casinha de que tem que ter aquele modelo tipicamente de sentar e fazer apresentação e depois discute. Você ter essa abertura abre portas para novas experiências."
Ronald também enfatizou que a engenharia por trás do evento foi fundamental para que a barreira linguística não se tornasse um obstáculo. "A organização teve um papel incrível de coordenar previamente e possibilitar que alunos que não falam a mesma língua conseguissem dar conta de 15 campos de visitação em uma semana e produzir material ao final, coerente, teórico e metodológico bem estruturado e multilíngue."
O professor Christophe Pons defendeu o papel da universidade pública como um ambiente singular, capaz de exercer o "comparatismo" ao analisar as intersecções entre política e religião sob o rigor acadêmico. Para o pesquisador, essa perspectiva permite formular questões que não surgiriam em outros espaços da sociedade. “Na minha perspetiva, a razão porque é importante que a universidade, o mundo académico faz esse tipo de pesquisa de trazer a questão da política e religião é também porque provavelmente é um dos lugares onde esta perspectiva é possível, de uma certa forma, universidade do comparatismo. As perguntas que são trazidas lá, aqui no mundo acadêmico, vão ser diferentes de outro lugar.”
Já Ronald Apolinário complementou a discussão analisando a religião como um elemento constante na estrutura social, que ganha maior ou menor evidência dependendo das demandas de esferas como a política e a economia. Para o pesquisador, o cenário atual reflete um momento histórico em que a esfera religiosa se tornou a principal referência de sentido na sociedade brasileira, obrigando outros setores a negociarem com ela. "Eu costumo trabalhar com a ideia de slide temporal, você pega a ideia de que você recorta no tempo o que naquele tempo está sendo tido como óbvio, como importante. O que hoje nós temos da religião aparecendo muito na política é porque a política está se utilizando dessa esfera religiosa que nesse momento se faz um pouco mais evidente. É um momento histórico onde isso se faz mais presente, mais intenso."
Responsabilidade Acadêmica e Espaço Público
Mariana Ilhêo destacou que a experiência de campo reforçou a visão da religião não como um campo isolado, mas como parte integrante das experiências humanas, sempre conectada a outras esferas. Para a coordenadora do LAR, é fundamental problematizar como diferentes crenças ocupam o espaço público e enfrentar o avanço de discursos que atacam minorias. "Não são todas as religiões que aparecem da mesma forma. A gente quer discutir qual é o limite: até onde vai a sua liberdade religiosa e até onde ela é atravessada por questões como a intolerância e o racismo religioso, que estão cada vez mais presentes frente a um avanço conservador e fundamentalista que ataca religiões minoritárias."
Para a pesquisadora, o evento simboliza a importância de a universidade assumir um compromisso ativo na disputa dessas pautas, evitando o silenciamento que contribui para o cenário de intolerância atual. "Enquanto acadêmica, o que acho mais bonito é a gente olhar para um lugar comum de discussão, mas que a gente de fato assuma um compromisso e ocupe esse espaço público de disputa. A partir do momento que a gente vira as costas e ignora essas coisas, as consequências são o que a gente está vendo agora [em referência ao contexto nacional e ao avanço do fundamentalismo religioso]."
Como desdobramento prático dessas discussões, o projeto "Religião no Campus" busca agora institucionalizar o olhar sobre a diversidade de crenças dentro da própria universidade. Olívia Bandeira ressaltou que a iniciativa, por seu caráter de extensão, visa transformar os dados em materiais formativos e políticas de inclusão. "A ideia não é só fazer a pesquisa, mas também a gente ver como ela tem desdobramentos em forma de atividade de extensão, seja atividade de formação ou elaboração de materiais relacionados à intolerância religiosa, diversidade religiosa e à própria ideia do que é laicidade. Tem uma conversa da gente tentar inserir também a categoria religião no mapeamento dos ingressos na Unicamp, porque os mapeamentos anteriores não tinham essa pergunta, então a gente está na conversa com a Comvest para poder incluir essa categoria."
A Escola Temática reafirma a importância de parcerias internacionais para o desenvolvimento de pesquisas coletivas e o fortalecimento de laços acadêmicos entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
A experiência evidenciou que o conhecimento antropológico se expande no encontro entre diferentes sensibilidades e contextos, abrindo caminho para que essa colaboração transnacional com membros do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR) continue a se consolidar por meio de projetos conjuntos.