
Roberto Slenes, professor emérito da Unicamp
A Universidade Estadual de Campinas outorgou, no dia 24 de novembro, o título de Professor Emérito a Robert Wayne Andrew Slenes, historiador norte-americano radicado no Brasil desde o fim dos anos 1970, cuja obra transformou a compreensão da escravidão, das famílias escravizadas e das conexões afro-brasileiras no mundo atlântico. A Sessão Solene, realizada no Auditório Fausto Castilho do IFCH, reuniu colegas, ex-orientandos, estudantes, familiares e amigos — muitos deles parte da extensa árvore intelectual que o professor cultivou ao longo de décadas de atuação na universidade.
Nascido nos Estados Unidos, Robert Slenes viveu parte da infância em Portugal e no México acompanhando o pai, militar do exército norte-americano. “Eu passei a maior parte da minha primeira infância — de seis meses a cinco anos — em Portugal e no México. Em Portugal eu comecei a aprender português, mas no México eu perdi o português e comecei a aprender espanhol. E quando eu tinha uns dez anos eu reaprendi espanhol de novo, porque a minha família passou um período lá. E pouco depois eu era o único aluno na minha sala, em Minnesota, que sabia que no Brasil se falava português, e não espanhol”, relata o professor.
Graduou-se em Oberlin College, onde também estudou história, matemática e economia. Durante a cerimônia de formatura, ouviu Martin Luther King Jr. — experiência que marcou seu percurso intelectual no auge do movimento negro nos Estados Unidos. Decidiu, então, migrar para a história. Ainda em Stanford, iniciou o contato com fontes brasileiras. “Eu comprei um livro no México que ensinava português para falantes de espanhol. E com esse livro eu comecei a ler fontes do século XVI ao XIX, já em Stanford. E aí eu decidi que queria estudar a história do Brasil, especialmente a história do negro na escravidão.”
Nos anos 1970, passou dois anos consultando arquivos no Rio, em São Paulo e em Campinas. De lá surgiu sua tese de 728 páginas, base do livro que mudaria a historiografia brasileira — Na Senzala, uma Flor. Depois de atuar na Universidade do Novo México e na Universidade do Colorado, veio ao Brasil em 1979, ingressou na UFF e, em 1983, assumiu o cargo no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, onde permaneceu por mais de três décadas. Robert Slenes orientou 29 dissertações e 25 teses, acompanhando trajetórias que seguem ativas no Brasil e no exterior.
Bob Slenes demonstrou que os escravizados no Brasil não viviam em anomia, como sugeriam interpretações clássicas. Pelo contrário, identificou que havia vínculos, casamentos, continuidade familiar e transmissão de cultura africana entre gerações. "“Na Senzala, uma Flor - esperanças e recordações na formação da família escrava” eu mostrei que os escravos no Brasil não viviam em anomia, como se dizia. As listas de matrícula aqui em Campinas mostram altos índices de casamento, laços duradouros, continuidade entre gerações. Então havia um ambiente propício para transmissão de cultura africana. A família existia."
Seu método, baseado em cruzamento de fontes e ligação nominativa, permitiu reconstruir biografias individuais. “Eu seguia nomes, um por um, em documentos diferentes, ao longo de décadas. E fazia ligação nominativa. Isso permitiu reconstruir famílias inteiras. A senzala não era um deserto de laços. Havia vida ali.” A virada conceitual provacada por Slenes também envolveu reconhecer a importância da herança centro-africana. “Descobrir que algo em torno de 80% dos cativos adultos antes de 1850 eram africanos mudou completamente o quadro. Não era possível escrever sobre escravidão no Sudeste sem compreender África.”

A contribuição de Slenes foi também institucional. Em 1995, ao lado de Silvia Lara, Maria Clementina Pereira Cunha, Sidney Chalhoub, Cláudio Batalha, dentre outros, fundou o Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult), que se tornaria um dos mais influentes núcleos de pesquisa histórica do país. Foi no Cecult que se formaram as primeiras gerações de especialistas em história da África no IFCH — muitas orientadas por ele — e foi ali que se fortificou a cultura de pesquisa documental seriada que hoje sustenta trabalhos sobre escravidão, pós-abolição e afro-brasilidades em diversas universidades.
A professora Raquel Gryszczenko Alves Gomes, madrinha da homenagem e ex-orientanda, reforçou o que ultrapassa o acúmulo bibliográfico. “Há muitas coisas que as linhas burocráticas de um currículo não contam. E é justamente aí que aparecem as preciosidades que fazem Robert Slenes um intelectual sem igual na historiografia brasileira”, disse Raquel. “A expressão que, com certeza, vai acompanhar grande parte — se não todos — os comentários possíveis sobre Bob é ‘generosidade intelectual’. Essa generosidade marcou a formação de gerações de historiadores e historiadoras. E revolucionou as práticas historiográficas brasileiras de forma irreversível.”
O diretor do Instituto, Ronaldo Rômulo Machado de Almeida, sintetizou a imagem do pesquisador. “Ele trabalha como um artesão: vai cavucando, cavucando, o para construir uma imagem. E eu vejo isso tanto no trabalho de historiador quanto vendo seu depoimento na relação com os alunos na formação deles lendo seus textos com muito cuidado um trabalho muito minucioso investigativo”.
A cerimônia foi presidida pelo reitor Paulo César Montagner, que destacou que o título reconhece uma trajetória incorporada à identidade da universidade. O ato encerrou-se com cumprimentos e assinatura no livro de honra — gesto simples e simbólico que confirma Robert Slenes não apenas como pesquisador, mas como parte viva da história da Unicamp.