Mata-mata: reciprocidades constitutivas entre classe, gênero, sexualidade e território

Os grupos de extermínio atuantes na região de fronteira entre Pernambuco e Paraíba assassinam, dentre suas vítimas, adolescentes e jovens em conflito com a lei, supostos “marginais”, trabalhadores rurais, sem-terras e homossexuais. Este “dado”, constante no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Extermínio do Nordeste, concluída no ano de 2005 na Câmara de Deputados, ensejou a pergunta que inaugurou o trabalho de pesquisa desta tese: como “grupos sociais” tão diversos como trabalhadores sem terra e LGBT figuram como vítimas das mesmas armas? O acesso inicial a narrativas documentais e, sobretudo, de militantes de movimentos sociais campesinos e do Movimento LGBT, acerca das violências que atravessam as suas vidas e os conflitos em que se acham implicados, possibilitou a contextura do objeto desta tese: relações de classe, gênero, sexualidade e territoriais reciprocamente constituídas e oportunizadas por narrativas sobre violência e pelas condições de possibilidade de produção dessas narrativas. Com isso, procura-se compreender as formas como essas narrativas sobre violência acionam as e são acionadas pelas reciprocidades constitutivas entre tais relações sociais. A tese se vale do acompanhamento de atividades de movimentos sociais, autos de inquéritos policiais e processos judiciais e, principalmente, de entrevistas junto a militantes dos mencionados movimentos. Percorrendo o caminho metodológico segundo o qual narrativas sobre violência conduzem a mais narrativas sobre violência, a tese passa pelas denúncias de uma militante de Direitos Humanos cujo filho gay foi assassinado num bairro periférico do Recife; transporta-se para cenas de um conflito agrário numa fazenda do semiárido paraibano; transita para as narrativas de duas travestis, ou mulheres transexuais, a respeito de suas trajetórias de migração e trabalho na prostituição; vai ao pequeno quarto de uma moradora de uma ocupação de sem-tetos; visita as páginas dos autos de um processo judicial em que uma travesti sem teto é vítima de assassinato; defronta-se inesperadamente com as dinâmicas do mercado de drogas ilícitas em João Pessoa; aproxima-se das narrativas de integrantes do comitê que buscou solucionar um caso de desaparecimento, estupro e homicídio da filha adolescente de uma sindicalista rural; e contabiliza as trinta facadas desferidas contra o corpo de uma travesti, num ponto de prostituição em Campina Grande. Para tanto, investiga-se as narrativas sobre violências e aquelas relações sociais, assim como o lugar narrativo do crime e da criminalização junto a essas relações. Procura-se também entender como relações de gênero e de sexualidade operam na tessitura de narrativas sobre violência e, ao revés, como a reivindicação narrativa da violência atua no perfazimento de relações de gênero e de sexualidade e nas disputas em torno da legitimação das vítimas.

Data da defesa: 
sexta-feira, 17 Março, 2017 - 14:00
Membros da Banca: 
Profa. Dra. Regina Facchini Presidente UNICAMP
Profa. Dra. Adriana Gracia Piscitelli Membro UNICAMP
Profa. Dra. Maria Filomena Gregori Membro UNICAMP
Prof. Dr. Sérgio Luis Carrara Membro UERJ
Profa. Dra. Adriana de Resende Barreto Vianna Membro UFRJ
Prof. Dr. Gabriel de Santis Feltran Suplente UNICAMP
Profa. Dra. Nashieli Cecilia Rangel Loera Suplente UNICAMP
Prof. Dr. Júlio Assis Simões Suplente USP
Nome do Aluno: 
Roberto Cordoville Efrem de Lima Filho
Sala da defesa: 
Sala da Congregação