“Dinheiro é bom, mas um amigo é melhor”

incerteza, orientação para o futuro e a “economia”

  • Benoît de L'Estoile École Normale Supérieure
Palavras-chave: Oikonomia, Reforma agrária, Incerteza, Antropologia econômica

Resumo

Com base em uma etnografia de longa duração focada em engenhos de cana-de-açúcar que se tornaram projetos de assentamento na Zona da Mata de Pernambuco, neste artigo eu questiono a evidência da “economia” como uma abordagem privilegiada para a compreensão da situação de vida dos pobres, a qual é estruturada pela precariedade e pela incerteza em relação ao futuro. Explorando a polissemia da palavra esperar (aguardar, ter esperança e expectar), o artigo analisa a pluralidade de orientações para o futuro de antigos trabalhadores assalariados das plantações de cana-de-açúcar incluídos em projetos de reforma agrária e suas estratégias para lidar com a incerteza. Embora o dinheiro seja desejável, ele tem um caráter transitório, e o valor dos amigos reside em seu potencial de ajuda, especialmente em casos de crise. Se a incerteza radical está fora do alcance humano, mobilizar amigos permite agir sobre a incerteza relativa.  Assim, a etnografia sugere que nos movamos para além de uma “antropologia econômica” que objetiva analisar “outras economias” e exploraremos os campos de oportunidades e os quadros de referência que estruturam situações de vida e as versões locais de oikonomia em seu sentido original de “governo da casa”.

Biografia do Autor

Benoît de L'Estoile, École Normale Supérieure

Antropólogo. Pesquisador sênior (Directeur de recherche) no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), professor de Antropologia na Ecole Normale Supérieure (ENS), Paris Sciences et Lettres Research University (PSL).

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Publicado
2020-11-25
Como Citar
L’Estoile, B. de. (2020). “Dinheiro é bom, mas um amigo é melhor”. RURIS - Revista Do Centro De Estudos Rurais - UNICAMP, 12(02), 227-264. Recuperado de https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/ruris/article/view/4261