Sobre limites e assimetrias

algumas notas sobre os brancos e suas cidades para os Karajá

  • Eduardo S. Nunes Universidade Federal do Oeste do Pará
Palavras-chave: Índios em cidade, Inỹ-Karajá, Conflito, Território

Resumo

Os dados do censo do IBGE de 2000 chamaram atenção, dentre outras questões, para o volume da população autodeclarada indígena que se encontrava em “situação de domicílio” urbana (38,5%). Por um lado, esses números são mais efeito do momento histórico que indicativos de uma mudança de situação: a presença indígena nas cidades brasileiras não é, certamente, recente. Mas, por outro, eles não dizem muito, pois tomam como dado o que seria uma “situação de domicílio urbana”. Ou, para fugir dos termos técnicos, eles tomam como dado o que seria uma cidade. E o que é, afinal, uma cidade? E o que é uma cidade do ponto de vista indígena? Ou então, no que precisamente uma cidade difere de uma aldeia e vice-versa? É sobre algumas dessas questões que esse texto se debruça. Tomando o caso de algumas aldeias karajá como foco de análise, gostaria de evidenciar não apenas a perspectiva desse grupo específico sobre o espaço urbano, como também a maneira como são confrontados pelos entendimentos e práticas dos brancos vizinhos. As cidades à beira do rio Araguaia surgiram, quase sem exceção, sobre sítios de ocupação karajá e, por isso, são entendidas pelos índios como estando dentro de seu território; ao mesmo tempo, elas são um limite para eles, criando constrangimentos de naturezas diversas. A convivência de índios e regionais tensiona diferentes modos de habitar e produzir lugares. Mais, porém, que dar conta dessa diferença, o que gostaria de fazer nesse texto é apontar como se trata, com efeito, de uma tensão; se há confluências, ainda que equívocas, mesmo essas são assimétricas.

Biografia do Autor

Eduardo S. Nunes, Universidade Federal do Oeste do Pará

Programa de Antropologia e Arqueologia, Universidade Federal do Oeste do Pará.

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Publicado
2020-11-25
Como Citar
Nunes, E. S. (2020). Sobre limites e assimetrias . RURIS - Centro De Estudos Rurais , 12(2), 53-90. https://doi.org/10.53000/rr.v12i2.4245