O ritual da moça nova entre os Ticuna de Umariaçu I, Tabatinga, Alto Solimões (AM)

  • May Anyely Moura da Costa

Resumo

Este ensaio é resultado da pesquisa de campo de mestrado desenvolvida em 2015 entre os Ticuna, em Umariaçú I, localizados no município de Tabatinga, Alto Solimões, no estado do Amazonas.   

  O ritual da moça é um rito de passagem. Ao menstruar pela primeira vez, a moça que protagoniza o ritual é submetida à depilação do couro cabeludo, que é realizada na presença de convidados, do seu futuro noivo e dos membros da família dela. Durante o ritual, a moça recebe orientação dos pais e parentes sobre como deverá se comportar para manter sua vida, construir e manter também a futura família, este ritual tem a duração de três dias. Após o rito, a adolescente (moça nova) entra na vida adulta.

  Para os Ticuna a realização deste ritual tem um significado comunitário importantíssimo. Acreditam os indígenas que se a festa não é realizada qualquer um da comunidade, principalmente a moça, pode ser atacada por seres “malévolos”, “demônios” ou “imortais” e ser comida ou ficar doente. Além dessa consequência individual, todas as famílias Ticuna correm o risco de não terem uma boa roça e, consequentemente, uma boa colheita pela aproximação dos seres na sua comunidade. Os Ticuna também falam que quando um ritual é bem feito todos ganham proteção, saúde, e a comunidade progride. Isso me leva concluir que uma das principais razões para fazerem essa festa é o medo desses seres “malévolos”, “demônios” ou “imortais” atacarem mortalmente a comunidade.  

Do ponto de vista cosmológico, a Festa da Moça Nova é feita para ela ver os imortais. Realizando a Festa da forma correta, a casa inteira onde acontece a festa é levada para o “céu” dos imortais. O problema é que hoje em dia, dizem os mais velhos, as pessoas não respeitam mais a sacralidade do ritual. Eles citam supostas evidências disso: segundo os anciões dos clãs, as crianças olham os instrumentos, as pessoas saem para namorar no meio da festa e as moças namoram os primos antes de passarem pela festa, meninas namoram com meninas e meninos namoram com meninos, a moça nova não fica tanto tempo reclusa das pessoas como antes e qualquer pessoa pode ver ela dentro do turí e até mesmo os que não pertencem ao clã dela.  

O contexto ritual é um momento singular por várias razões: é o espaço onde os imortais podem aparecer para os mortais; momento único para a sociedade Ticuna reviver a memória de seus antepassados; ocasião da moça nova ser apresentada como uma mulher pronta para casar; oportunidade de a moça aprender tudo que foi passado de geração para geração; período para ensinar a todos indígenas Ticuna ali presentes a cultura local e o significado de todos os ornamentos e objetos do ritual para a nova geração e principalmente para incentivar a aprendizagem dos cantos do ritual e assim assegurar que sejam cantados em outros rituais realizados na comunidade e em outras comunidades ticuna.

Publicado
2018-08-12
Como Citar
Costa, M. A. M. da. (2018). O ritual da moça nova entre os Ticuna de Umariaçu I, Tabatinga, Alto Solimões (AM). PROA Revista De Antropologia E Arte, 1(8), 159-164. Recuperado de https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/proa/article/view/3216
Seção
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