Materialidades e preces no SerTãoCerrado

  • Ralyanara Freire

Resumo

“Lá no alto de São Benedito, onde sol e a lua alumeia.
Lá no alto tem um caminho onde Nossa Senhora passeia”. Ritmado pela batida forte dos tambores, os Ternos de Congadas[1] se destacam nas ruas de bairros e vilarejos. As procissões partem dos barracões das comunidades até a chegada final nas igrejas que têm Nossa Senhora do Rosário e São Benedito como santidades cultuadas. O mastro se faz imponente com a bandeira destes santos, e a coroa do rei do Congo é entregue à família que dará prosseguimento ao festejo no ano seguinte.

Noutro período, os pandeiros de fita, o gemer da sanfona e o choro da viola é que embalam as pessoas devotas dos Três Reis do Oriente. Enquanto o embaixador enaltece os santos por meio de rimas, as mulheres entoam lamentos altos e fortes. “E também quem enfeitou o cordão”. Na espreita, abrem-se as portas para a Folia de Santos Reis[2] entrar. “Vem beijar nossa bandeira e escutar a cantoria ai ai”!

As variações de folguedos[3], pelas idas do Cerrado goiano, são bonitas de viver. Neste esboço de narrativa gráfica, apresento um olhar afetado e afetuoso, desde dentro. Parto da perspectiva das escritas da vida (KOFES, 2015), bem como de uma abordagem antropológica das imagens (BELTING, 2012). De tambor ou de viola: vibram-se as cores neste SerTãoCerrado!


[1] As Congadas, Congados ou Congos é uma manifestação cultural afro-brasileira que ocorre em várias partes do Brasil, variavelmente de agosto a outubro. Festeiras e festeiros da cidade de Catalão, Goiás, realizam, anualmente, uma das maiores Congadas do país. Apesar disso, é possível ver por todo o estado esta manifestação. O bailado dramático das Congadas recria a coroação de um Congo, sendo que a coroa é um objeto central.

[2] Folia de Reis, Reisado ou Festa de Santos Reis. Tem o intuito de rememorar a atitude dos Três Reis Magos – que partem à procura do esconderijo do menino Jesus para lhe fazer homenagens. Por isso, o folguedo é realizado de 24 de dezembro até 06 de janeiro, data em que se comemora, respectivamente, o nascimento de Jesus e o Dia de Santos Reis. Enquanto nas Congadas a dança e as batidas de tambor são destaque, nas Folias de Reis os lamentos entoados são acompanhados de sanfona, viola, e típico tocar de pandeiros. Este conjunto forma uma indescritível paisagem sonora. A bandeira de Santos Reis, beijada pelas pessoas devotas aos Reis Magos, também é destaque no festejo.

[3] Sucintamente, Folias de Santos Reis, Festas de São João, Congadas, Procissões de Fogaréis, Romarias e Cavalhadas. Destaco neste ensaio as Folias de Santos Reis, e as Congadas pela vivência que tenho nos festejos.

Biografia do Autor

Ralyanara Freire

Doutoranda em Antropologia Social - Unicamp

Referências

BELTING, H. Antropología de la imagen. Madrid: Katz Editores, 2012.

KOFES, Suely. Narrativas biográficas: que tipo de antropologia isso pode ser? In: KOFES, Suely; MANICA, Daniela. Vidas & grafias: narrativas antropológicas, entre biografia e etnografia. Rio de Janeiro: Lamparina & FAPERJ, 2015.

Publicado
2018-12-15
Como Citar
Freire, R. (2018). Materialidades e preces no SerTãoCerrado. PROA Revista De Antropologia E Arte, 2(8), 120-137. Recuperado de https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/proa/article/view/3092