Na rua, o sentido da festa:

tapetes sagrados, perecíveis serragens em cor

Palavras-chave: Fotografia, Corpus Christ, Festa, Tapete

Resumo

A prática de enfeitar as ruas para receber o sagrado manifesto remonta ao uso de oferendas ao divino e na representação do drama social. Os antigos tapetes eram ornamentações de cunho popular, realizadas como meio expressivo de crenças religiosas na Europa. Em períodos medievais tal prática contextualizava relações diretas entre a dádiva e a retribuição, estabelecendo influências no uso de calendários agrícolas para a manutenção e prática dessas tradições. Esse objeto (tapete) evidencia especificidades próprias da sociedade que o construiu. Prepara o caminho ao sagrado, contudo, numa via constituída por um meio efêmero, fugaz. Ele retrata de maneira primorosa o entendimento da comunidade sobre o rito, e por sua vez, sobre a festa. A partir de experiências antropológicas em campo foram observadas as feituras dos tapetes de serragens, que ornamentam a via da procissão na festa de Corpus Christi, em Sabará/MG.

A composição dos tapetes interconecta as relações de sociabilidade estabelecidas entre os moradores das ruas investigadas, a festa, rito, memória e situações de transmissão que reforçam valores identitários e de pertencimento à cultura imaterial da cidade. O tapete ilustra a liturgia em seu principal contexto – morte/renascimento – portanto, possivelmente, aponta limites acenados pelo barroco. Neste, corpo e alma, matéria e espírito, efêmero e indelével, aproximam-se e se complementam. Mediante isso, percebe-se que o tapete remete à própria criação da festa - a criação da vida coletiva - pois ambas se encontram, e, nesse encontro, definem-se.

Metaforicamente, o tapete e a festa são matérias efêmeras alusivas à Eucaristia Cristã, que anunciam as pertinências da comunhão, atribuindo-lhes significados como, o encontro, e a epifania. O contexto evidenciado na festa pela ritualística católica do “Corpo de Cristo” assim como sua efetivação (o caminhar da procissão pelo/no tapete), é posta como prova maior do sacrifício, elucidando assim o tema ritual, a própria composição dessa festa, a "efemeridade estética".

O tapete de serragens, "ornamento efêmero", criação sujeita à destruição – perecível - possivelmente encontra na festa, a expressão de sua existência. Aqui a noção de sacrifício parece ser preeminente. Mesmo que pisoteada, a construção estética advinda da serragem colorida cumpriu, nesse momento, o seu desempenho. Nessa reflexão, o tapete dá à festa sua própria significação, ou seja: designa-a como uma festa, como Corpus Christi. Assim, observa-se que o limite entre ambos, festa, rito e objeto (tapete) não existem, pois um se torna motivo do outro: tapete-festa-rito.

APRESENTAÇÃO EM VÍDEO: https://youtu.be/j4C_YVH-nvw

Biografia do Autor

Frederico Luiz Moreira, Universidade Federal de Minas Gerais

Mestre em Educação pela FaE/UEMG, é Artista Plástico e Arte Educador (Escola Guignard/UEMG), atuando como professor de Arte e pesquisador na área do Patrimônio Cultural Imaterial.

Publicado
2019-07-15
Como Citar
Moreira, F. L. (2019). Na rua, o sentido da festa:. PROA Revista De Antropologia E Arte, 1(9), 197-211. Recuperado de https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/proa/article/view/3069