Casas, terreiros e T/terra: fotografias da festa-ritual-sazonal Iraxao

Resumo

Apresentação

Quando estivemos em Tapi’itãwa, na Terra Indígena Urubu Branco, na Amazônia, entre os dias 06 a 13 de janeiro de 2017, especificamente, no dia onze de janeiro, no tempo das águas, co-autorx registrou através de fotografias e de vídeo etnográficos o feitio das duas máscaras do Iraxao.

Dentro da Takãra (casas dos homens) as máscaras foram feitas coletivamente. Homens de diferentes idades estavam presentes. Alguns auxiliaram em sua fabricação, embora um artesão-xamã se destaque no feitio dos detalhes desse artefato.

As máscaras foram confeccionadas com a palha de folhas de buriti coletivamente pelos homens, encantadas e potencializadas com os espíritos dos Karajá, estabelecem entre o povo Apyãwa (Tapirapé) conexões com os afins potenciais e/ou virtuais, como os axigas. Quando os corpos são fabricados em cada metade Wyrã em relação aos axigas, os corpos como veículos de comunicação com os afins potenciais e/ou virtuais e de um enfrentamento/posicionamento através dos enfeites, do embelezamento, da ornamentação e da transformação dos corpos a cosmopolítica entretecida pelos Tapirapé sugerimos que pode, então, ser vislumbrada.

As máscaras e os maracás dos dançarinos-xamãs Iraxao surgem no takope (terreiro) e no pátio enfrente a Takãra ao meio dia do dia 12 de janeiro de 2017 com uma sequência de danças e cantos que se estendeu até o fim da tarde. Certamente é o tempo forte comumente registrado por antropólogos, cineastas e fotógrafos. Porém, se considerarmos que a festa-rito-sazonal Iraxao é composta de variados momentos, as fotografias selecionadas para esse ensaio visual quer justamente revelar que a fluidez da vida transborda e se faz presente também nas outras casas e no takope (terreiro) apontando mesmo para o devir e conduzidas também pelas mulheres-xamãs dias antes das danças e cantos. Por estarem do lado de fora da Takãra (casas dos homens), em frente às casas onde situam os fornos tradicionais, meninos, meninas, rapazes e moças foram e são (re)tocadas com as pinturas corporais pelas mulheres-xamãs, mestres na arte e técnica de pintar e enfeitar os corpos e fazer parentesco.

Assim, a ontologia das imagens, nos termos de André Bazin (1983), dessas fotografias que foram feitas entre os Apyãwa (Tapirapé) durante a festa-rito- sazonal Iraxao busca mirar e focar a estrutura que estrutura o parentesco (VIVEIROS DE CASTRO, 2002) e as pessoas (COELHO DE SOUZA, 2001). Desde a produção das máscaras dentro da Takãra; ao uso da tinta de jenipapo nos modos de delinear os grafismos e retocar uma dada pintura corporal sob a casinha-cozinha, onde se situa o fogo tradicional; até a dança do par de mascarados acompanhados pelas dançarinas-xamãs e pelos cantores-dançarinos-xamãs, que aconteceu no takope (terreiro) na frente da Takãra.

A cartografia demonstrada com as fotografia fazem narrar o que está traçado com a palha – as máscaras, a Takãra e os telhados das casas. As imagens apontam fractalidades (WAGNER, 2010) com o vídeo documentário Traços Tapirapé (co-autorx, 2016), feito também durante uma festa-ritual-sazonal Iraxao, no que tange a feitura da pintura corporal, a fabricação do corpo de uma moça por sua mãe. Tais imagens demonstram as mesmas linhas, pontos e traços de um dos variados grafismos indígenas (Apyãwa).

 

Câmeras: Canon Eos Digital Rebel, Iphone 4S.

Biografia do Autor

Paula Grazielle Viana dos Reis
Licenciada em Ciências Sociais. Mestre e doutoranda em antropologia pelo Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGAn-fafich-UFMG). Professora de sociologia da rede estudal de educação em MG.
Vandimar Marques Damas
Mestre e doutor em arte e cultura visual. Professor da rede estadual de ensino de Goiás.

Referências

COELHO DE SOUZA, Marcela. "Nós os vivos: construção da pessoa e 'construção do parentesco' entre alguns grupos jê". Revista Brasileira de Ciências Sociais, 16(46):69-96. 2001.

TAPIRAPÉ, Xario’i Carlos. Cantos do Xarowi. In: Pesquisas indígenas na Universidade. Série de Textos Indígenas Museu do Índio – Funai. 2010.

TAPIRAPÉ, Gilson Ipaxi’awyga, Yrywaxã Tapirapé, Ikatopawyga Daniela Tapirapé e Koxawiri Tapirapé, Koxawiri Tapirapé, Júlio César Tawy’i Tapirapé, Josimar Ieremy’i Tapirapé, Arapaxigi Tapirapé, Klebson Awararawoo’i Tapirapé, Koxamare’i Tapirapé, Kaxowari’i Tapirapé, Xaripe’i Tapirapé, Mônica Veloso. Histórias Apyãwa. Revista articulando e construindo saberes. V. 2, N. 1. 2017. https://www.revistas.ufg.br/racs .Acesso em 30 de janeiro de 2018.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac & Naify. 2002a.

WAGNER, Roy. A invenção da cultura, São Paulo: Cosac & Naify: 2010.

TRAÇOS TAPIRAPÉ. Diretorx: co-autorx. 27’39’’. 2016.

Publicado
2018-12-15
Como Citar
Viana dos Reis, P. G., & Damas, V. M. (2018). Casas, terreiros e T/terra: fotografias da festa-ritual-sazonal Iraxao. PROA Revista De Antropologia E Arte, 2(8), 29-38. Recuperado de https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/proa/article/view/3001