Processos de microvariação nas estéticas ameríndias

  • Eduardo Pires Rosse Universidade Federal de Minas Gerais

Resumo

Estudos recentes sobre diferentes produções estéticas indígenas das Terras Baixas da América do Sul vêm mostrando mecanismos recorrentes de composição por microvariação. Construções literárias, mas igualmente pictóricas ou musicais põem em obra, através de repertórios extensos, processos discursivos altamente redundantes mas onde a repetição stricto sensu parece ser ao mesmo tempo rejeitada. Interseção possí- vel entre diferentes linguagens sensíveis e diferentes tradições culturais, o que chamamos provisoriamente de “microvariação” seria um campo fértil à observação de uma série de qualidades associativas: citações entre objetos distantes no tempo ou no espaço e abertura da produção tangível em direção a prolongamentos virtuais, coagulação efêmera de objetos e grupos de objetos, ou a multiplicação de processos de diferencia- ção contínua, numa lógica produtiva de tipo “alteridade constitutiva” (Erikson 1996).

Palavras-chave: Estética ameríndia, microvariação em produções estéticas.

Biografia do Autor

Eduardo Pires Rosse, Universidade Federal de Minas Gerais
Professor do Departamento de Teoria Geral da Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) onde co-lidera o Grupo de Etnomusicologia

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Publicado
2016-12-31
Como Citar
Rosse, E. P. (2016). Processos de microvariação nas estéticas ameríndias. PROA Revista De Antropologia E Arte, 1(6). Recuperado de https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/proa/article/view/2653
Edição
Seção
Artigos