Entre a Arte e a Terapia: as “imagens do inconsciente” e o surgimento de novos artistas

  • Magdalena Sophia Ribeiro de Toledo Universidade Federal do Rio de Janeiro

Resumo

Em 1946, a psiquiatra Nise da Silveira e o artista plástico Almir Mavignier trabalharam na criação de um ateliê de pintura no Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. Para a psiquiatra, as obras produzidas no ateliê possibilitariam revelar os estados psíquicos dos indivíduos portadores de transtornos mentais, seguindo a linha de análise junguiana. Deste modo, as imagens eram entendidas como um importante veículo de expressão em estados esquizofrênicos, nos quais a linguagem verbal se mostraria limitada e inadequada, e o ato de pintar, possuidor de efeitos terapêuticos. Tais obras constituíam, nas palavras de Nise da Silveira, “documentos plásticos” que deveriam ser devidamente catalogados e pesquisados, motivo de criação, em 1952, do Museu de Imagens do Inconsciente. Em seus primeiros anos, o ateliê foi frequentado por uma nova geração de artistas que, mais tarde, formaria o movimento concreto carioca. Com isso, as obras produzidas no ateliê pelos internos ganharam uma visibilidade fora dos muros da instituição psiquiátrica, possibilitando que a muitas delas fosse atribuído, por parte da crítica especializada,sobretudo Mário Pedrosa, o estatuto de “obras de arte”, o que, conjuntamente, contribuiu para o “surgimento” de novos artistas.

Biografia do Autor

Magdalena Sophia Ribeiro de Toledo, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Referências

Arantes, Otília Beatriz Fiori. Mário Pedrosa: Itinerário crítico. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

Bourdieu, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

__________. “Gênese histórica de uma estética pura”. In: O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

Chan, Gloria Thereza. Emygdio de Barros: o poeta do espaço. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Belas Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, 2009.

Dias, Paula Barros. Arte e Ciência no Brasil (1946-1952): O apoio de artistas e críticos de arte nas origens do Museu de Imagens do Inconsciente. In: .

Frayze-Pereira, João. Nise da Silveira: imagens do inconsciente entre psicologia, arte e política. Estudos Avançados, 17 (49), 2003.

Goldstein, Ilana. Reflexões sobre a arte “primitiva”: o caso do Musée Branly. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 14, n. 29, p. 279-314, jan./jun. 2008.

Gullar, Ferreira. Nise da Silveira: Uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 1996.

Lima, Elizabeth Araújo. Arte, clínica e loucura: território em mutação. São Paulo: Summus: Fapesp, 2009.

Pedrosa, Mário. Arte, necessidade vital. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1949.

_________. “Introdução”. In: Museu de Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro, Funarte – Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1980. (Coleção Museus Brasileiros, 2)

Reinheimer, Patrícia. O território da arte: da nação ao indivíduo, valores antagônicos na afirmação da autonomia da forma. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 14, n. 29, p. 15-41, jan./jun. 2008.

____________. “Tô maluco, mas tô em obra: a trajetória do artista moderno e as representações da loucura”. Revista de Ciências Sociais. v. 41. n. 1, 2010.

Russo, Jane. O Mundo Psi no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

Silva, José Otávio Motta Pompeu. A psiquiatra e o artista: Nise da Silveira e Almir Mavignier encontram as imagens do inconsciente. Dissertação de Mestrado. Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, 2006.

Silveira, Nise da. “A esquizofrenia em imagens”. In: Ferreira, Martha Pires. (Org.). Senhora das Imagens Internas: escritos dispersos de Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2008.

__________. Entrevistas. In: Mello, Luiz Carlos. (Org.). Encontros: Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Azougue, 2009.

__________. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.

__________. Jung. Vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra: 1997.

__________. O Museu de Imagens do Inconsciente – histórico. In: Museu de Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro, Funarte – Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1980. (Coleção Museus Brasileiros, 2)

Villas Bôas, Glaucia. A estética da conversão: O ateliê do Engenho de Dentro e a arte concreta carioca (1946-1951). Tempo Social. Revista de Sociologia da USP, v. 20, n. 2.

Publicado
2011-11-01
Edição
Seção
Artigos