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A área das humanidades na era da universidade tecnológica

 
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MensagemEnviada: Ter Jun 07, 2005 12:46 am    Assunto: A área das humanidades na era da universidade tecnológica Responder com Citação

I-À guisa de Introdução.

1- As diferentes áreas.

É amplo e complexo o tema das relações entre conhecimento científico, saber tecnológico e reflexão crítica – o primeiro voltado para a formulação de teorias sobre objetos, o segundo voltado para a formulação de soluções imediatas para dificuldades práticas e, o terceiro, voltado para a explicação de pressupostos presentes nos mais diversos raciocínios utilizados para justificar o que fazemos, pensamos e percebemos, inclusive, ao formularmos teorias de objetos e soluções para dificuldades práticas. Além de amplo, sinal de sua complexidade é o fato de que esse tema tem sido centro de intensas discussões ao longo dos séculos, desde os antigos gregos até a modernidade contemporânea. Se vale ainda a pena retomá-lo – e, certamente, sempre valerá – será preciso proceder por partes, escolhendo e sugerindo aspectos que possam ser-nos conjunturalmente mais relevantes, ou mais familiares, sem que percam, por isso, sua natureza universal.
Consideremos um exemplo, já clássico – na verdade, devido a Aristóteles, mas comum entre os pensadores da época – de um aspecto das relações entre ciência e saber prático. No caso da medicina, o cientista visaria exclusivamente elaborar uma teoria que fosse a explicação das doenças que nos afligem; por isso, o cientista teria acesso ao conhecimento de universais. Por seu turno, o médico concentra sua atividade na cura de indivíduos doentes e, por isso, o seu interesse está voltado para a aplicação prática do conhecimento universal da doença. Enquanto o cientista formula teorias sobre universais, o médico lança mão de tais teorias e procura implementá-las na vida prática de seus pacientes – o que faz, certamente, proliferar novas questões, ausentes da reflexão exclusivamente teórica do cientista, uma vez que este não olha para os olhos do indivíduo que sofre, não vê o seu sofrimento, mas, apenas, pensa a doença universal.
Parece haver, então, dois campos diferentes, ainda que não incompatíveis, entre conhecimento e saber prático: enquanto este último necessita colher conhecimentos para ser capaz de agir, o primeiro não precisa agir para conhecer pois move-se na contemplação teórica. Esta separação de tarefas não reflete, está claro, o que ocorre na prática cotidiana do cientista e do engenheiro – chamemos assim o indivíduo do saber prático – onde, efetivamente, os papeis podem ser alternados. A distinção, entretanto, é importante para orientar a análise que segue da posição das humanidades com relação à ciência e à tecnologia.
À primeira vista, não é simples perceber os limites que marcariam claramente a atividade na área das humanidades, por contraste com as áreas das ciências e da tecnologia, uma vez que vemos emergir, no interior das próprias humanidades, disciplinas com pretensão a se tornarem científicas – como é o caso da lingüística, da psicologia, da economia, de certos ramos da etnologia, antropologia, sociologia, entre outros – ou, também, com a pretensão de encontrarem soluções práticas imediatas – como é o caso de certos ramos da lingüística e da psicologia mais voltados para o tratamento terapêutico e assistencial, ou para a capacitação instrumental em diferentes técnicas; ou, como também é o caso, em certos ramos da economia, etnologia, antropologia e sociologia, voltados para atividades de assessoramento de mais diversas instituições.
Assim, no interior das humanidades, temos setores voltados tanto para o conhecimento teórico quanto para o saber prático. Contudo, há outro critério que permite esclarecer os limites entre a área das humanidades e os da ciência e da tecnologia – permitindo, inclusive, situar as diversas disciplinas emersas das humanidades com pretensão tanto a se tornarem científicas como a implementarem soluções práticas a problemas imediatos. O critério é muito simples e, certamente, isento de polêmica: trata-se da natureza do enfoque dado ao objeto de estudo por essas atividades. Se as explicações e descrições produzidas forem causais ou mecânicas, podemos considerar que se trata de atividades científicas e tecnológicas. Se, por contraste, as explicações e descrições se ativerem exclusivamente aos sentidos do objeto de estudo, podemos considerar que se trata de atividades hermenêuticas, reflexivas ou críticas – que poderíamos qualificar de humanísticas, para contrastá-las com as anteriores.
Por exemplo, um ramo da psicologia que descreva aspectos do comportamento humano em termos de reações fisiológicas ou químicas a estímulos poderá ser considerado como ciência empírica, assim como a física e a química, enquanto que um ramo da psicologia que se interesse por aspectos significativos do comportamento humano poderá ser considerado como parte das humanidades.
Temos, assim, um critério bastante simples e esclarecedor – ainda que provisório e apenas preparatório - das complexas relações entre as diferentes áreas: ciência e tecnologia correspondem a atividades que enfocam seus objetos de estudo do ponto de vista empírico, enquanto que as humanidades enfocam seus objetos do ponto de vista dos sentidos que lhes são atribuídos. Esse critério permite esclarecer, por exemplo, que o enfoque humanístico do objeto seja sempre perpassado por conceitos do próprio pesquisador o qual é levado, por isso, a elaborar meta-conceitos para interpretar os sentidos que tematiza – por contraste com o enfoque empírico em que o pesquisador elabora conceitos de objetos, e não meta-conceitos, para descrever e explicar processos naturais segundo modelos mecânicos e causais.

2- Quantidade e qualidade.

A preocupação, aliás, legítima, em avaliar a produção intelectual nas diversas áreas da universidade deve atentar para as diferenças básicas entre elas, evitando colher critérios exclusivamente em uma determinada área e aplicá-los a outras áreas. Um dos grandes perigos dessa aplicação generalizada e dogmática – tal como assistimos ocorrer atualmente em nossas universidades - é sua natureza marcadamente ideológica, a saber., o processo que transforma subrepticiamente medidas de quantidades – adequadas, é importante repetir, para as explicações e descrições com enfoque empírico - em critérios de valoração . O pressuposto ideologicamente marcado é a idéia de que o caráter objetivo da quantificação, que permite medir processos naturais, será conservado no julgamento do valor da produção intelectual – e, mais do que isso, deve ser conservado para assegurar o julgamento isento e imparcial – se quantificarmos essa produção. A produção intelectual passa a ser considerada um processo natural e a técnica de quantificação uma forma objetiva de conferir valor a esse processo – como se n+1 metros ou quilos de alguma substância fosse melhor do que n metros ou quilos dessa substância, ao invés de ser apenas mais extenso ou pesado.
Processo bem conhecido e já bastante analisado por vários filósofos é o da espacialização do tempo – o que é adequadamente realizado pelas ciências naturais, tomando de empréstimo o conhecimento elaborado pelas ciências exatas. Trata-se de fixar em unidades extensas e discretas propriedades de processos naturais, tal como definidas pelas teorias com as quais se deseja apreender conceitualmente os processos. Instrumento teórico importante para as ciências, a espacialização permite tornar extensas as transformações, mudanças e decursos de processos empíricos em geral, e aplicar a eles medidas quantitativas e modelos causais. É o tempo físico que se torna, assim, objetivado na forma de medidas discretas, segundo as coordenadas espaciais que são os dias, as horas, os metros, os pesos, os volumes, etc, que servem para a construção de instrumentos como relógios, réguas, balanças, e outros – tornando mensuráveis, e, com isso, inteligíveis, p.e., a dissolução do açúcar na água, os pontos de ebulição de diversos líquidos e de dilatação de diversos sólidos, o decurso de mudanças biológicas em diferentes espécies e em indivíduos, etc. São técnicas eficazes de apropriação de processos naturais e mecânicos pelo pensamento científico.
Este trabalho teórico de objetivação não pretende aplicar-se, todavia, a processos que não sejam naturais e mecânicos nos quais intervenha o sentido, tais como os processos simbólicos. Assim, p.ex., o físico e o químico não pretendem medir objetivamente a quantidade de justiça ou de beleza, nem mesmo a quantidade de pensamento ou de compreensão evocados por determinado conceito ou por determinada relação entre conceitos. Não é esse o seu objeto de estudos. Não é o mesmo conceito de objetividade que vige nos dois domínios de estudos.
De fato, se a descrição e a explicação objetivas de processos naturais são, em grande parte, conquistadas através da espacialização do decurso desses processos, o mesmo não ocorre com processos simbólicos. Neste caso, como salientamos, será preciso construir meta-conceitos para preservar a objetividade, uma vez que ela não se limita, aqui, a espacializar como condição para pensar quantidades e combiná-las sob a forma de descrições e explicações causais. Será preciso construir instrumentos conceituais que operem sobre outros conceitos, i.e., que neutralizem os conteúdos subjetivos presentes nos sentidos atribuídos aos processos simbólicos estudados. Por exemplo, os conceitos psicanalíticos de inconsciente, pulsão, cena originária, etc., são meta-conceitos construídos pelo pesquisador para neutralizar os sentidos apresentados pelo paciente e permitir que o analista organize objetivamente os processos mentais relatados.
O conceito de objetividade presente neste caso não é assimilável ao conceito homônimo das ciências: enquanto este último corresponde a tornar discreto e quantificável o que nos aparece como contínuo e desprovido de sentido, o primeiro, inversamente, corresponde a neutralizar conteúdos subjetivos presentes nos conceitos apresentados como justificação para o sentido do que fazemos, pensamos, sentimos e percebemos. Para analisar-se objetivamente o sentido não é pertinente a construção de unidades quantificáveis, uma vez que não se trata de medir, mas de interpretar pela mediação de meta-conceitos – os movimentos do processo de objetivação são, como se vê, inversos: em um caso, a medida é um meio para conferir sentido ao processo natural e, no outro caso, a interpretação é um meio para controlar as formas subjetivas de atribuição de sentido aos processos simbólicos.
Por isso é que ao aplicar-se critérios quantitativos para avaliar a produção intelectual – tanto na área da ciência, quanto na da tecnologia e nas humanidades – opera-se a seguinte transformação conceitual: na expectativa de conservar a objetividade das descrições científicas, aplicam-se medidas ao que, todavia, não é quantificável por não ser redutível a processos naturais, mecânicos e causais - com a finalidade de avaliar, de emitir juízos de valor de maneira cientificamente objetiva. O valor passa a ser visto sob a forma da quantidade, uma vez que um instrumento das ciências foi aplicado para avaliar processos simbólicos, portadores de sentido, operando, com isso, sua espacialização: ligações de sentido passam a ser consideradas como quantidades espacialmente discretas - sob a forma de número de livros, artigos, publicações internacionais ou nacionais, de periódicos indexados ou não, de textos redigidos em língua estrangeira ou não, em língua inglesa ou em outra língua, número de aulas, conferências, cursos, eventos, assessorias, consultorias, atividades administrativas, e tantas outras unidades espaciais que se queira inventar para que possam ser medidas – e, infelizmente, disputadas entre os melhores candidatos...
Eis uma transformação conceitual da qualidade em quantidade, operada ideologicamente através da generalização indiscriminada do ideal cientificista de objetividade. Esta operação é ideológica em, pelo menos, dois sentidos. Em primeiro lugar, como já indicamos, porque corresponde ao que poderíamos denominar de cientifização tecnológica da sociedade – ao aplicar a idéia de objetividade presente nas ciências a todas as esferas da vida social, tomando-a, de maneira implícita, como correspondência com a verdade, o que seria, aliás, supostamente comprovado pela eficácia das soluções encontradas pela tecnologia. Temos, aqui, os três conceitos-chave que dão corpo ao argumento usado para justificar esta operação ideológica: a objetividade do conhecimento científico conduz à eficácia das soluções tecnológicas práticas, e isto comprova que atingimos o reino da verdade. Em segundo lugar, e complementarmente, no que concerne a avaliação da produção intelectual na universidade, a operação também é ideológica porque corresponde não apenas ao interesse conjuntural em mostrar à sociedade a qualidade excelente dessa produção, mas, principalmente, em mostrá-lo através de medidas marcadas pela objetividade das ciências – assim como, está claro, em poder excluir objetivamente toda produção intelectual que não responda às mesmas exigências, ou melhor, excluir todos os que não se candidatam para a disputa, os que não querem colaborar...

3- A avaliação.


Esse quadro mais amplo e prévio poderia esclarecer as diversas situações e as dificuldades que deve enfrentar o processo de avaliação das diferentes áreas da universidade. Uma vez que se consiga esclarecer, tal como tentamos sugerir, a transformação conceitual da qualidade em quantidade, que leva a confundir processo de medida com atribuição de valor, será possível, então, distinguir dois procedimentos diferentes e caracterizar suas respectivas finalidades – sem mais confundí-los.
Em primeiro lugar, o procedimento de quantificar a produção intelectual corresponde a descrever empiricamente essa produção. Procedimento que pode ser bastante útil, para determinadas finalidades, mas que não é capaz de realizar aquilo que com ele se pretende, a saber, avaliar, atribuir valores, desde o excelente até o péssimo. Em segundo lugar, o procedimento de avaliar essa produção corresponde a emitir juízos de valor sobre processos simbólicos os mais diversos – na área das ciências, da tecnologia e das humanidades –, julgar desde o que é excelente até o que é péssimo. No segundo caso, trata-se de julgar a respeito da pertinência, da importância e da originalidade de determinada ligação entre conceitos até então sem relação entre si – ligações tão freqüentes e revolucionárias na história das ciências assim como na história da filosofia. Ligações que permitiram criar novas áreas de pesquisa, ligações tais como entre a análise matemática e a geometria, ou entre a análise de funções e a análise lógica da linguagem; a passagem da concepção corpuscular à de onda elétro-magnética, assim como a passagem da concepção de espaço absoluto à de espaço relativo à velocidade e ao tempo; ou, ainda, a ligação entre a concepção medieval monolítica de idéia e a concepção de idéia como processo psíquico e como representação, em Descartes, que permite a passagem do realismo filosófico tradicional às várias formas do idealismo moderno.
Ligações conceituais só podem ser avaliadas, não podem ser quantificadas, e essa avaliação depende de critérios que sejam internos à área em que são produzidos os conceitos e suas ligações. Daí, outra característica distintiva fundamental entre avaliação e quantificação: os critérios para avaliar devem ser colhidos no interior dos processos a serem avaliados – o que não ocorre e não deve ocorrer, no caso da quantificação, uma vez que processos naturais não têm sentido enquanto naturais. Ligações conceituais devem ser avaliadas através de meta-conceitos, os quais são instrumentos que permitem organizar os conceitos cuja ligação está sendo avaliada. Por exemplo, os conceitos do campo da geometria analítica permitem comentar, meta-lingüisticamente, os conceitos dos campos da geometria e da análise e, assim, julgar sobre a pertinência, importância e originalidade da nova área de conhecimento – da mesma maneira para os casos mencionados da física, da lógica matemática e da filosofia cartesiana. No caso da medida de quantidades, como já notamos, os critérios são externos aos processos naturais e, mesmo, por razões metodológicas, devem sê-lo, uma vez que sua espacialização é uma operação imposta pelo cientista para torná-los inteligíveis e permitir que se lhes atribua um sentido – a saber, o sentido conferido pelos critérios quantitativos para medidas extensas - i.e., no espaço - de duração, volume, peso, massa, energia, etc.
Parece claro, pois, que a avaliação a respeito dos processos simbólicos que são a produção intelectual multiforme da universidade só pode ser realizada através de critérios internos às próprias áreas em que são feitas as avaliações, respeitando-se a lógica de seus conceitos, de suas ligações. Não há padrões universais que possam ser aplicados a todas as áreas para julgar o valor das ligações conceituais, mas, sim, critérios internos a cada área de atividade e, mesmo, internos a cada ramo no interior de uma mesma área e, inclusive, internos a cada teoria – com o grau de detalhamento a que se propuser a avaliação.
Assim, no que concerne à atividade de avaliar a produção intelectual na universidade, todas as áreas podem submeter-se a critérios internos e específicos – repitamos, com o grau de detalhamento desejado – que permitem julgar sobre a qualidade das ligações conceituais apresentadas, desde os casos de excelência até os casos a serem desprezados, passando, inclusive, pelos casos dos erros fecundos, tão habituais na história da ciência e da filosofia. Nesse sentido, seria um profundo equívoco avaliar procurando preservar a especificidade das diferentes áreas através de quantificações diferenciadas, como, p.e., estipulando que livros, artigos, cursos, conferências, assessorias, etc., possuiriam pesos diferentes para cada área – independentemente de sua qualidade simbólica, irredutível a pesos e medidas.

4- As humanidades.

Finalmente, é apenas dentro deste contexto que seria conveniente refletir, com um pouco mais de clareza e com menos confusão, sobre a especificidade da área de humanas, sobre sua posição e sua função no interior de uma universidade cada vez mais dominada pela ideologia que poderíamos denominar de cientificismo tecnológico – mescla de saber prático e de conhecimento científico que fundamenta sua concepção de conhecimento e sua atividade institucional, como salientamos, através dos conceitos de objetividade científica, eficácia na solução de obstáculos naturais e práticos e de verdade, como correspondência entre conhecimento, saber prático e eficácia – ou, em outros termos, como correspondência entre ciência e tecnologia.
Nessas circunstâncias – as quais, aliás, não são exclusivas da sociedade brasileira – caberia a pergunta do poeta, transposta, agora, para o novo contexto: Para quê as humanidades em uma época estéril?
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