
O debate sobre a propriedade de bens culturais ganhou força, ao longo das últimas quatro décadas, no bojo da descolonização da África e da Ásia, e dos processos de formação nacional subseqüentes. Objetos tratados no Ocidente como peças de museu, artefatos com valor arqueológico, etnográfico ou artístico passaram a ser reivindicados como representativos de culturas nacionais, como documentos capazes da dar historicidade a nações em formação ou ainda como evidências materiais a testemunhar, por sua presença em lugares para os quais não foram feitos, o caráter espoliativo do colonialismo. Pouco antes disso, um debate similar, com características próprias, teve início na Europa, com o término da Segunda Guerra Mundial, em reação ao confisco, roubo ou desaparecimento de obras arte e de outros bens pertencentes à população judaica da Alemanha, assim como às populações de outros países ocupados, durantes as décadas de 1930 e 1940.
Mobilizando interesses e interpretações diversas, esses objetos (dos mais prosaicos aos mais sofisticados) possuem efetivamente uma aura, ou seja, um valor associado, nos termos de Arjun Appadurai e Igor Kopytoff (cf. The social life of things, Cambridge University Press, 1986), à sua “vida social”. Em outras palavras, a “biografia” destes objetos, a história de sua circulação, incluindo, em particular, sua entrada e saída do mercado, sua transformação em mercadoria e posterior reclassificação dentro das várias categorias possíveis, é tão importante quanto suas características físicas para a compreensão de seu estatuto, não apenas econômico ou social, mas também artístico. A noção de “patrimônio cultural” talvez seja a que melhor englobe estes vetores.
Os objetos discutidos por Laura Hostetler (professora da Universidade de Illinois, em Chicago), e Tamara Levitz (professora do Departamento de Musicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles), no primeiro número da revista Proa são particularmente interessantes nesse sentido. Esculturas em bronze produzidas na China, no século XVIII, por um jesuíta europeu, são emblemáticas de um momento da história imperial chinesa caracterizado pela adoção entusiasmada do cosmopolitismo. Componentes de um conjunto de doze cabeças, cada uma representando um dos símbolos do zodíaco chinês, as peças em debate adornavam um dos jardins do palácio de verão da dinastia Qing.
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Durante a Segunda Guerra do Ópio, em 1860, tropas inglesas e francesas saquearam o palácio e o incendiaram. Mais de um século depois, duas das peças saqueadas ganharam ampla notoriedade: no início de 2009 foram colocadas em leilão pela Christie’s, em Paris. Um negociante de arte chinês, Cai Mingchao, arrematou as peças por valores astronômicos, para anunciar em seguida, com grande estardalhaço, que não pagaria por elas.
Como destaca Laura Hostetler, as duas guerras do ópio (a primeira iniciada em 1840, a segunda em 1860), demarcam, aos olhos dos chineses, a entrada da China na era moderna: o país ingressa nela derrotado, recupera progressivamente sua força até alcançar posição de grande potência no concerto das nações, sob a liderança do partido comunista. As peças saqueadas do palácio de verão são especialmente importantes para o governo chinês, assim como para parcelas importantes da população chinesa, no contexto dessa narrativa. Recuperá-las seria uma forma de acertar contas com o passado. A questão geopolítica e o contexto nacionalista da reivindicação chinesa são destacados e discutidos por Laura Hostetler.
Sem ignorar esses pontos, Tamara Levitz lança luz sobre outro aspecto, relativo ao valor das peças como testemunhas de uma catástrofe, cujo luto a população chinesa ainda não pôde realizar, mantendo-se aberta, em decorrência disso, uma “ferida nacional” – a despeito do crescente poderio chinês no cenário internacional.
Soma-se a isso um complicador adicional: museus em todas as partes do mundo estão repletos de peças cujos contratos originais de compra e venda não podem ser encontrados. Até meados do século XX, expedições de coleta, comércio ou saque de objetos – sendo difícil, por vezes, distinguir entre as três modalidades – eram comuns e compunham parte expressiva do anedotário do colonialismo, a começar por histórias de caça ao tesouro. Ao admitir a aplicação retroativa de regras jurídicas produzidas ao longo dos últimos 50 anos, relativas à circulação ilegal de objetos com valor artístico ou cultural, países beneficiados, no passado, pela circulação "descontrolada" correm o risco de ver parte significativa de seu patrimônio museológico se perder. A questão se estende, naturalmente, a objetos obtidos, direta ou indiretamente, em decorrência de eventos ocorridos durante a Segunda Guerra. Essa é outra questão em jogo no debate em torno das peças chinesas.
Os textos de Laura Hostetler e Tamara Levitz, tratando do controverso caso das estatuetas chinesas, são ambos inéditos e foram escritos especialmente para o número inaugural da revista Proa. A seguir, disponibilizamos tanto os originais em inglês, como as traduções, feitas por Alessandra Tráldi Simoni.

