GT de Filosofia da Ciência

Minicurso de filosofia da ciência – Anpof 2008 – “A racionalidade científica”

 

Aula 2

Racionalidade científica ou racionalidade nas ciências?

 

Prof. Dr. Luiz Henrique de Araújo Dutra (UFSC)

 

 

Tradicionalmente, os filósofos da ciência caracterizam as ciências como verdadeiros paradigmas da racionalidade. A racionalidade das ciências estaria patente, por exemplo, naquelas ocasiões em que os cientistas avaliam elementos de sua atividade à luz de valores eminentemente epistêmicos (como verdade, testabilidade e poder explicativo) e fazem escolhas pautadas por tais valores. Esta postura se encontra em campeões da racionalidade científica, como Popper. Se um cientista examina duas hipóteses e se decide por aquela que, aparentemente, possui mais falseadores potenciais, ele faz uma escolha racional, isto é, uma escolha que pode, eventualmente, colocá-lo mais perto da verdade. Embora o aspecto axiológico seja menos enfatizado por abordagens como esta, ele é de importância central. As escolhas racionais são aquelas que se baseiam em valores epistêmicos, em contraposição aos valores pragmáticos mas ainda eminentemente científicos (como simplicidade e axiomatibilidade – e, para alguns, como van Fraassen, o poder explicativo estaria aqui e não entre os valores epistêmicos) e em contraposição também aos valores extra-científicos (sociais, econômicos, etc.). Esta imagem da atividade científica não é, contudo, exata, além de se basear em uma noção restritiva de racionalidade. Uma noção mais ampla – e também tradicional entre os filósofos – mais adequada para avaliar a atividade científica é aquela segundo a qual o comportamento racional se caracteriza pelo fato de o agente pesar razões pró e contra um curso de ação, antes de tomá-lo. Conservar ou não uma hipótese que aparentemente possui mais falseadores potenciais ainda pode ser uma decisão racional deste ponto de vista, mas eliminar tal hipótese em favor de outra, com menos falseadores potenciais, também poderia ser, dependendo do contexto científico examinado e dos valores mais salientes em tal contexto. Do ponto de vista pragmático (isto é, levando em conta o uso de teorias científicas em determinados contextos de investigação), a racionalidade da atividade científica pode adquirir formas diversas, quando adquire; mas pode também adquirir algumas formas que seriam declaradas irracionais segundo uma concepção como aquela de Popper. A explicação para isso é que a racionalidade não é uma característica da ciência – em contraposição a atividades menos racionais ou mesmo não-racionais (como jogar cartas, fazer compras ou andar de bicicleta). Ao contrário, os tipos de investigação que encontramos nas ciências podem ser caracterizados como cursos racionais de ação, dependendo do contexto mais localizado em que se dão. Nem sempre a atividade científica é uma atividade de pesar razões pró e contra um curso de ação, porque muitas vezes não há razões relevantes a serem levadas em conta. Mas, por outro lado, em muitas ocasiões, há, e tais razões decorrem da relevância dada a determinados valores no contexto em que uma investigação localizada se mostra como tipicamente racional, ou seja, no contexto que permite a atividade de pesar razões pró e contra um curso de ação.